sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Marguerite Duras, O Vice-Cônsul





« Peter Morgan. Pára de escrever.
Sai do quarto, atravessa o parque da embaixada e dirige-se para a avenida que ladeia o Ganges.
Ela está lá, diante da residência do ex-vice-cônsul de França em Lahore. À sombra duma moita escavada, na areia, no seu saco ainda molhado, a cabeça calva à sombra da moita, ela dorme. Peter Morgan sabe que ela caçou e nadou uma parte da noite no Ganges, que abordou as pessoas que passeavam e que cantou, é assim que ela passa as suas noites. Peter Morgan seguiu-a em Calcutá. É o que ele sabe. » 1



Quase todos os romances são de um modo ou de outro prescindíveis. Uns são-no porque não têm, nem nunca terão, espessura suficiente para justificar o investimento intelectual de os ler. Outros, quando a tiveram, perderam-na com o tempo e a transformação dos leitores.
Sobra meia dúzia de livros em cada época, aqueles que são capazes de se projectar para além do momento em que são escritos. Estes, não apenas não são prescindíveis, como constituem elementos decisivos na configuração de uma linguagem e de uma tradição. É o caso deste livro de Marguerite Duras, datado, no original francês, de 1965.
Depois de alguma atenção editorial e crítica nos 90, em Portugal, Marguerite Duras quase desapareceu das livrarias e do olhar dos leitores. No entanto, no seu melhor, é autora de uma escrita personalizada e inquieta com muito poucas.

Passado numa Calcutá encenada e ficcionada até ao limite do erro O Vice-Cônsul gravita em torno de três personagens centrais, as quais estão ligadas por uma lei ou uma lógica que as ultrapassa, mesmo que ou quando não se contactem.
Duas mulheres — Anne-Marie Stretter (mulher do embaixador Francês, uma mulher fácil, mas inapelavelmente difícil, quase intocável), uma mendiga louca (a rapariga cambojana, expulsa de casa pela gravidez e que deambula pela Ásia durante dez anos até desembocar em Calcutá).  Um homem — o antigo vice-cônsul francês em Lahore, cargo de que fora destituído na sequência de um comportamento incompatível com a função. Cada um destes é, em parte, a projecção do outro, o seu negativo e a sua realização. Cada um destes é, em parte, aquilo que o outro poderia ter sido, se não fosse compelido a ser o que é. Por isso, todos são, de facto, intocáveis. Mutuamente intocáveis, no mínimo.
É notável a capacidade de escrita da autora para, com um conjunto muito restrito de elementos narrativos, construir uma atmosfera de fortíssima ansiedade sensorial e intelectual.
Personagens à deriva, analiticamente confrontados com a sua própria irracionalidade, arrancados do tédio apenas para constatar a inutilidade do esforço, a impossibilidade de contrariar aquilo que o tempo e o mundo, o corpo ou o desejo, impõem como inevitável.
A escrita é obsessiva, na sua aparente simplicidade de meios. Neste e em outros livros, Duras reescreve continuamente as histórias, num movimento de reenvio e de transformação das personagens, numa permanente reescrita do texto como reescrita do mundo. Em todos os casos, o mesmo tactear, a mesma quase suspensão das palavras diante de alguma coisa que, não cabendo nelas, apenas nelas se realiza.
Perder este livro é perder parte importante do que de melhor a literatura o século XX nos legou.






1. Marguerite Duras, O Vice-Cônsul, trad. de Flora Larsson, Difel, 4ª edição, 1996, p. 27.