domingo, 19 de fevereiro de 2012

A utilidade




A herança romântica, kantiana e modernista quis convencer-nos de que a arte pode constituir um fim em si mesmo. Que é espúria qualquer pretensão de a subordinar a um critério de utilidade. Este preconceito perdura, mesmo que conscientemente se rejeite a ideia de arte pela arte.
Mas a questão é válida: para que é que serve?
Versos, novelas, romances, ensaios. Páginas e páginas de papel impresso, ou de ficheiros a aguardarem uma leitura que nunca ou só superficialmente chegará. Para que é que serve? Escreve-se para quê? Pinta-se, fotografa-se, registam-se mais horas de ficheiros do que aquelas que alguém algum dia poderá actualizar. Arquiva-se, sobrepõe-se, acumula-se.
A questão mantém-se, também ela escrita, retórica e inútil: para quê?