sexta-feira, 9 de março de 2012

Alexandre Guarnieri, Casa das Máquinas





« c4s4 d4s má9uin4s

tod0s os m3canismos servis, entre es5es
exibindo eficiênc1a às avess4s: assín-
cronos, p4líndromos, contár1os,
limitados ao az4r de funcionare3m
ao revés, inv3r5os, de trás pra frent3. » 1


Com a predominância na poesia portuguesa contemporânea de orientações informalistas e de uma abordagem tendencialmente prosaica do quotidiano ou das identidades, é fácil esquecermo-nos da fundamental herança artística e literária das últimas décadas: a afirmação da investigação conceptual como via de produção artística e literária.
Se a herança conceptual é claramente assumida ao nível das artes plásticas, o mesmo não acontece na literatura. Primeiro, porque o seu peso nunca foi o mesmo: a literatura é por natureza conceptual, pelo que a investigação conceptual não pode deixar de produzir uma reiterada remissão para uma identidade que é a sua — desembocando frequentemente num exercício tautológico e gratuito de progressiva homorreferencialidade. Por outro lado, à distância de algumas décadas, é possível verificar que muita da chamada poesia experimental (nomeadamente aquela que procurava assumir e articular o texto com a sua dimensão figural) se revela algo pobre, quando não ingénua.
Isto não significa que não permaneça um vasto campo de exploração para a literatura e em particular para a poesia. Permanece, rico e amplamente aberto: aberto à exploração das relações com a imagem, aberto à dimensão oral, aberto à subversão dos sistemas de signos, etc. 
Casa das Máquinas, o primeiro livro de Alexandre Guarnieri (1974, Rio de Janeiro), é um excelente exemplo de exploração das potencialidades criativas quer de um programa conceptual estrito, quer do risco inerente a uma aproximação exploratória e experimental da língua. Estamos perante uma poesia experimental, operando a manipulação dos sistemas de signos para produzir um impulso representacional de particular eficácia.

O programa conceptual e programático está claramente indiciado no título: Casa das Máquinas. O livro desenvolve um imaginário industrial, centrado na técnica e na máquina. Desde os mais pequenos mecanismos (por exemplo, muito assertiva na sua contenção, a série 11/onze rebites, que precisamente explora as possibilidades semânticas, culturais e técnicas de um objecto aparentemente anódino como o rebite), aos aparelhos mais complexos, ou às relações humanas nas sociedades industrializadas. Curiosamente, num momento em que se aprofunda a sugestão de estaríamos a desenvolver sociedades pós-industriais, fundadas na imaterialidade dos fluxos de informação, um livro como este coloca como central a ideia da máquina e da matéria. Mesmo que o objecto em análise seja um dispositivo técnico e material designado por disco rígido (veja, por exemplo, 2/dois discos rígidos, p. 23), a dimensão mecânica permanece central: a matéria pode ser manipulada, mas não superada.


« pedra fundamental


não da pedra à pedra: calcário e areia. nem pedra cuja área se perca ou retraia. não é a pedra de água: o frágil gelo que valha. não é de pedra pequena que algum alpendre prenda. nem essa pedra que quebre: granito podre e breve. não é a pedra que parta ao peso que antepare. nem a  pedra de ventre onde algum fruto arrebente. mas a pedra de ser pedra sendo-a simplesmente, pedra que não desprenda de sê-la possível sempre. pedra tão imprópria ao olho que imagem não recolha por ser tanto nela mesma o bloco que lhe é comum. tanto deserta a pedra que destino algum destrua um poder seu ser pedra que de nada mais dependa. pedra densa, perene, serena a forma que tenha a límpida geometria dessa área impenetrável. pedra tanto repleta de ser pedra sendo-a sempre que não haja idéia sequer para algo que não a seja. pedra bruta, sombrosa, que não tendo dentro ou fora sendo o centro que é inteira a sua matéria severa. pedra sem erosão, que, inerte, por quantos séculos penetre, permaneça tão completa bem como descomunal.» 2


Sabe-se como a questão da técnica é um dos temas centrais da modernidade. Num momento de questionamento dessa herança, a abordagem que aqui é efectuada não acusa nem redime a máquina, não a menoriza nem a enaltece, constata. O registo é quase objectivo, apesar dos ocasionais desenvolvimentos de uma imagética herdeira de algum surrealismo. A objectividade e o quase registo técnico da escrita são aqui elementos fundadores.
Este livro comporta igualmente um forte investimento no projecto gráfico, também da responsabilidade de Alexandre Guarnieri. Normalmente, o texto surge na página direita, e na página esquerda surgem pequenas e recortadas imagens de dispositivos mecânicos . Cada um dos textos é também objecto de uma formatação específica (que aqui não se reproduz). O resultado é um livro-objecto bastante sugestivo, embora os poemas não precisassem do suporte visual para se afirmarem. A escrita, sem cedências nem concessões, seria suficiente. O programa conceptual é desenvolvido de uma forma quase metódica, mas imaginativa, e é só por si capaz de transpor a abordagem aparentemente fria e objectiva para um plano que é claramente o da inventividade estética e poética.




1. Alexandre Guarnieri, Casa das Máquinas, Editora da Palavra, Rio de Janeiro, 2011 (183 p.), p. 82.
2. Idem, p. 121.