domingo, 4 de março de 2012

A emancipação




«O pensamento e a acção dos séculos XIX e XX são regidos por uma Ideia (...). Esta ideia é a de emancipação. A sua argumentação é, de facto, diferente conforme aquilo a que se chamam as grandes filosofias da história, as grandes narrativas nas quais se tenta ordenar a enorme quantidade de acontecimentos: narrativa cristã da redenção do pecado adâmico pelo amor, narrativa aufklärung da emancipação da ignorância e da servidão pelo conhecimento e o igualitarismo, narrativa especulativa da realização da Ideia universal pela dialéctica do concreto, narrativa marxista da emancipação da exploração e da alienação pela socialização do trabalho, narrativa capitalista da emancipação da pobreza pelo desenvolvimento tecno-industrial. Há entre estas narrativas matéria para litígio e mesmo para diferendo. Mas todos situam os dados que os acontecimentos trazem no curso de uma história cujo termo, mesmo permanecendo inatingível, se chama liberdade universal, absolvição da humanidade inteira.» 1


O conceito de narrativa é um eixo fundamental do pensamento de Lyotard. Implícita está a tese de que a organização do mundo em narrativa constitui não apenas um processo de organização do tempo em memória ou ficção, mas um instrumento de constituição do próprio mundo como coisa humana, uma ferramenta de produção do possível.
Narrar não é unicamente contar uma história. Narrar é organizar a experiência em mundo, desenhar no espaço e no tempo as possibilidades de acção e de pensamento, predeterminar os possíveis de cada movimento.
É neste contexto que a Modernidade é pensada como uma narrativa de emancipação. A Modernidade, conta-nos Lyotard, ter-nos-á contado a voluntariosa história da sua própria construção como processo de emancipação. Emancipação do homem enquanto indivíduo e da humanidade enquanto todo. Não a narrativa da memória mítica de uma libertação, mas o projecto da realização do mundo como coisa humana. Como coisa mais humana, vinculado a um projecto de mundo e de sociedade assentes sobre a ideia da generosidade da história e do tempo como agente de transformação positiva.

A história do século XX ensinou-nos a duvidar. Os melhores de nós continuaram a acreditar. 
Sob o título ambíguo e problemático de pós-modernidade, pensadores como Lyotard ensinaram-nos a duvidar pelo menos o suficiente para tentar salvar o que poderia ser salvo. É duvidoso que tenhamos acreditado na dúvida. É mesmo duvidoso que quem algum dia acreditou na história como projecto de libertação individual e colectiva possa verdadeiramente desistir. Qualquer que seja a narrativa em que confiou. Qualquer que seja a linguagem organizadora dessa narrativa: a arte, a ciência, a política, a técnica, ou outras.
O optimismo histórico sem paralelo na história da humanidade que construiu os últimos duzentos anos de civilização e de mundo (e de barbárie e de caos, sabemo-lo) não pode sem mais ser varrido para o caixote do lixo da história. E, no entanto, a dúvida reergue-se diante de nós com a violência das coisas palpáveis. Com a violência daquilo que não apenas não era antecipável pela narrativa, como, sobretudo, que não é legível no seu interior.




1. Jean-François Lyotard, O Pós-Moderno Explicado às Criançastrad. de Tereza CoelhoPublicações Dom Quixote, 1987, p. 38-39.