domingo, 2 de setembro de 2012

“classe média”





Usar categorias bafientas de séculos para caracterizar uma realidade que se transformou ao ponto de não caber nelas conduz frequentemente ao equívoco e à deturpação. Um texto como este 1, de António Guerreiro, na aparência herdeiro da vocação crítica da modernidade, resulta paradoxalmente conservador, quase reaccionário.
A postura de denúncia oculta a adesão quase acrítica a uma visão classificatória da sociedade. A crítica da “classe média” aceita sem questionar uma inaceitável conceptualização do espaço público sob a categoria de classe.
Mais, herdeira de uma reiterada denúncia da “pequena burguesia”, esconde uma posição de poder tão sobranceira quanto irresponsável. Esvaziando esse espaço social e simbólico o que é que sobra? Sobra a miséria dos excluídos e o privilégio das elites - económicas, políticas ou culturais. Ou seja, sobram as diferentes figuras do poder: a arrogância do dinheiro, da força, ou da crítica.
A literatura, a arte e o pensamento são outra coisa. A exigência diante de si e diante do mundo é outra coisa.



1. António Guerreiro, Ao pé da Letra, Expresso, Atual, 1 de Setembro, de 2012, p. 30.