quinta-feira, 28 de março de 2013

Simão Valente, Miniatura



Não raramente, o rigor em poesia acaba por se condenar a si mesmo, rarefazendo a intensidade da escrita com o rarefazer das palavras, e acabando encerrado na repetição de um conjunto mais ou menos antecipável de topos poéticos. Não é, de todo, o caso deste livro. Miniatura (1), de Simão Valente (Lisboa, 1987), alcança, aliados a uma assinalável inventividade, uma contenção e um domínio de escrita que não são comuns.

«Volto-me, para onde estão todas
as sombras menos a minha. Ando,
apareces a meu lado, pedida,
sem esforço, de vontade outra
à minha e à tua. Se hesito, ficas?
E se agora me voltar, estarás tu
sozinha no lugar de onde vim?
Descreve-me. Faz com que articule
a outra coisa como se não fosse
incerta e escuta-me ainda quando
já não for.»

Repare-se como este texto supõe uma sequência ou um contexto narrativo que é exigido como condição do sentido do enunciado, e simultaneamente o veda, dado que, apenas esboçado, se assume como um implícito que não chega a ser explicitado.
Em literatura, e na poesia em particular, parte da construção semântica faz-se pela produção de implícitos. Implícitos de linguagem e implícitos de sentido. Em ambos, caberá ao leitor preencher aquilo que o texto deixa em aberto ou em suspenso. É sempre muito difícil identificar qual o grau adequado de implícito da escrita, qual a correcta (se existe, pois é tarefa da escrita subverter esta própria correcção) distância entre o implícito e o explícito, entre aquilo que é dito e aquilo que esse dizer supõe.
Ao nível dos procedimentos de escrita, agirá aqui isso a que, sem outro nome, talvez possamos designar de intuição. Na criação artística, é esta capacidade de intuição (que não coincide com o distanciamento crítico, mas que é condição deste) que permite muitas vezes separar os melhores dos bem-intencionados. Ora, encontramos neste livro um muito eficaz manuseamento dos implícitos, precisamente aí onde age a intuição criativa. 

«Atira o copo à cara, a que riu ao ouvido,
para aprenderes a violência que há na torção
da tua cintura e do teu braço. Consegues.
O teu gesto, esse, é de um ridículo só.
Escarnece o esgar de ti, de ti e não
da tua fraqueza. É outro o assunto.
Ajoelham-se? Alguém dobra as costas
e por favor não duvides se os olhos
de todos se confundirem enquanto — com
respeito? — te erguem e te levantam. Diz o
teu pedido de cansaço, uma desculpa
para desistir, que assim talvez te perdoes

Do mesmo modo, é difícil gerir aquilo que separa o lirismo fundado na vivência subjectiva de um sujeito expresso ou suposto e o momento em que esse lirismo se alimenta apenas das palavras que o construíram enquanto literatura. Miniatura consegue produzir a experiência subjectiva com um rigor que não cede à tentação de cumprir apenas as expectativas da língua: apropria-se da língua e da escrita para traçar um espaço de percepção e de reflexão, construindo-se como ponto de articulação da consciência face a si mesma. Não se tratará de expressar alguma coisa que seja anterior à sua inscrição como texto, tratar-se-á de o descobrir / produzir no processo de escrita. Tudo isto com  assinalável densidade e a consistência estéticas.

Miniatura constrói-se em três Quadros (três momentos, três andamentos, três sequências de uma narrativa não sequencial) com os quais se cruzam fragmentos de uma outra narrativa, como esboços preparatórios do argumento de um filme que não chega a realizar-se.

«Casa, caiada, pequena, junto à linha do comboio.
No quarto rente aos carris uma menina. Habituada ao
ruído, dorme. Certas noites acorda com um baque contra
a parede. Depois da locomotiva, que abranda e pára.
Não dorme mais, ouve vozes. Na manhã seguinte
a mãe lava o sangue. Esta não é uma dessas noites

Entre aquilo que a narrativa enuncia e aquilo que esse enunciado supõe abre-se um espaço sinestésico de experiência, literário, mas incontornavelmente cinematográfico. É na remissão mútua do plano lírico para o do narrativo, da remissão da experiência verbal para a experiência sensorial que o melhor deste livro se revela.

Por outro lado, encontra-se, por vezes, uma consciente recondução do vocabulário e do imaginário a um espaço reconhecivelmente poético: a articulação das palavras obedece a uma sensibilidade e a uma gramática semântica que remete, de um modo arriscadamente homorrefencial, para o território da poesia como arte. Um olhar mais céptico verá por detrás do rigor da escrita os germes de um programa literário ameaçado de se esgotar na sua própria enunciação. Um olhar mais confiante verá aqui, na segurança dos propósitos e no autodomínio da escrita, o ponto de partida para um projecto de excepção.



1. Simão Valente, Miniatura, Artefacto, 2013 (75 p.).