quarta-feira, 19 de junho de 2013

Nuno Dempster, Uma Paisagem na Web




Para a literatura, é uma tarefa difícil pretender dizer o mundo como ele é. Não apenas porque não existe “o mundo como ele é”, mas por que ela própria não é por natureza uma simples forma de mediação. Ao contrário, é um processo de construção do próprio objecto, de reconstrução daqueles que possam ser os seus referentes factuais. Ao nível da poesia, este problema é acrescido. A poesia, tal como aprendemos a modelá-la desde pelo menos o Renascimento, não é a linguagem da verdade, é a linguagem do artifício que a si mesmo se toma como verdade.
Por isto, é sempre surpreendente quando um livro consegue com sucesso agarrar na experiência corrente e transportá-la para o plano de uma relação com o mundo que parece prescindir dos tradicionais instrumentos de mediação literária. É este o caso de Uma Paisagem na Web, de Nuno Dempster. Um livro que ao mesmo tempo testemunha e denuncia, faz a apologia e o lamento da transformação, mede a proximidade e a distância face a um mundo que talvez nunca tenha existido. Tudo isto, assumindo a mediação, a perspectiva, o condicionamento do olhar e da palavra de um modo que, ao invés de obscurecer a percepção, se faz lugar de uma estranha forma de revelação.

O bosque de pinheiros mansos
tranquiliza-me em tardes quentes,
quando as monótonas
cigarras são a luz do sol que fere
e a sombra é um odor a bálsamo.

Aí me refugio, recupero o silêncio
e imagino que bebo
água da fonte, as mãos em concha.


Inicia-se assim o longo poema que estende pelas quase cinquenta páginas deste livro, de assinalável lucidez de escrita. Não há no entanto qualquer promessa de paz. Este texto é, antes, um lugar de confrontos: entre o rural e o urbano, entre o interior (subjectivo e geográfico) e o exterior (objectivo e simbólico), entre a história (que por natureza nunca cumpre as suas promessas) e o presente (que por circunstância nunca coincide consigo mesmo). Ou nem sequer confronto, apenas trânsito: de um mundo arcaico e arcádico que deu lugar aos subúrbios, de um mundo de proximidade e confiança que deu lugar a uma distância que não é lonjura nem extensão, apenas separação.
Mas esta não é uma abordagem apenas subjectivizada. É evidente dimensão política deste texto. Enunciar é primeiro passo para subverter e transformar:

«Não sei de onde esta gente herdou
Tamanha sujeição.

Do choro dos escravos?»

Um passo talvez inútil, ou incapaz de modificar aquilo que denuncia. Mas o movimento sem o qual qualquer reacção se afigura inútil. A palavra poderá, ainda, constituir-se como o último reduto da resistência. Neste sentido, escrever não traduz propriamente uma opção, mas um imperativo cívico e civilizacional. Nuno Dempster cumpre-o aqui com um fulgor e uma força invulgares.
Uma das características mais marcantes desta escrita é a sua extrema legibilidade. Tal não traduz qualquer espécie de facilitismo ou de empobrecimento, pelo contrário: a força daquilo que é dito é aqui directamente proporcional à nitidez do discurso. Verso após verso, não há construções sobrecarregadas de vocabulário rebuscado e pseudo-poético. Encontramos, antes, uma escrita cuidada, mas nítida, com a espessura do léxico comum, aquele que verdadeiramente é capaz de nos dar o mundo como ele é vivido. O único que é talvez realmente capaz de o subverter.





1. Nuno Dempster, Uma Paisagem na Web, & etc, 2013, (49 p.).