domingo, 14 de julho de 2013

João Silveira, GKJMA





Este não é um livro de poesia, é uma pequena novela, esboçada nos intervalos das elipses que ela própria constrói. E é um muito melhor livro se assumido como novela do que se situado no espaço dúbio e normalmente mal frequentado daquilo que se designa por prosa poética.
Tendo por referente distante a ilha japonesa de Gunkanjima (pequena ilha-cidade, esvaziada de todos os seus habitantes nos anos setenta do século XX, após um século de ocupação), o livro produz uma alegoria dos regimes totalitários que prometiam a felicidade com a mesma impunidade com que reprimiam a descrença na nessa promessa:

«Fomos para aqui trazidos porque era aqui que éramos necessários, disseram-nos. A nossa presença, o nosso entusiasmo, o nosso esforço colectivo — éramos necessários. E as minas eram a grande ponte para o futuro. As minas escondiam tesouros. Éramos necessários.
(…) 
Foi aqui que deixei os jogos e os livros e me tornei, com o meu pai, responsável pela minha família e pelo meu país, pela glória da nossa bandeira.
As minas eram o inferno.»

Pespectivamos a ilha a partir do olhar do seu último habitante da ilha, o sobrevivente dos que se recusaram a abandoná-la aquando da evacuação. É um percurso entre as ruínas e a memória, aqui indiferenciados por uma descrença tão prospectiva quanto retrospectiva. Quando sobrevém a derrocada e o abandono da ilha, aquilo que condena os homens não é o esboroar do projecto, ou a ausência de fé, mas a falta de alguma coisa em que acreditar:

«Dei por mim, então, em frente ao edifício da Junta de Manutenção. Destruí o único vidro ainda intacto com a perna. Não senti nada porque não existia mais nada

João Silveira tem neste livro uma escrita cuidada, com a liberdade de construção que a poesia permite e que na prosa tende com demasiada frequência a ser regulada por convenções e expectativas de legibilidade. Não é aqui o seu caso. Embora por vezes se encontrem algumas estratégias narrativas mais reconhecíveis, o livro consegue transportar para a escrita, na escrita, a inquietação que percorre a história, as suas dúvidas e aporias. Resulta apenas a sensação de que todo o projecto mereceria um maior desenvolvimento, de que estamos diante de um esboço sério e austero de um contexto narrativo que teria muito a ganhar em ser aprofundado.





1. João Silveira, GKJMA, ilustrações de Rita Faia, Artefacto, 2013, 35 p.