quinta-feira, 29 de maio de 2014

A incompetência



Se em tese é aceitável uma abordagem à tradução que potencie a proximidade entre a língua de partida e a de chegada, nada pode autorizar a incapacidade de reconhecer a especificidade idiomática de cada uma delas.
A tradução de Intempérie (1), de Jesús Carrasco, da responsabilidade de Raquel Ochoa e com revisão de Silvina de Sousa, é de uma repulsiva falta de qualidade. À medida que avançamos no livro, a leitura vai-se revelando um suplício: um programa de tradução automática talvez não tivesse feito pior. Numerosas frases correspondem não a um trabalho consciente e profissional de tradução, mas a opções ineptas de quem não parece dominar nem a língua de partida nem a língua de chegada. São inúmeras as frases que, decalcadas do castelhano, simplesmente não fazem sentido em português, aproximando-se da caricatura e do absurdo.
 Este livro, meritório no original, deveria ser objecto de recolha pela editora e indemnização aos compradores. É difícil admitir que uma chancela da Presença possa permitir-se colocar no mercado uma tradução com este défice de qualidade. Jesús Carrasco, como qualquer autor, merece ser respeitado. A língua portuguesa também.
 
 
1. Jesus Carrasco, Intempérie, trad. de Raquel Ochoa, Marcador, 2014.