domingo, 15 de junho de 2014

A arte pela arte




Histórica e culturalmente, a arte (ou aquilo que, de um modo tão ubíquo quanto equívoco, se designa como tal) será a capacidade de produzir representações que se têm a si mesmas como primeiro referente. Por extensão, o artista é um produtor de representações que, distintamente de outros (como os produtores de ciência), estabelecem consigo mesmas uma relação privilegiada e que o autorizam a redefinir os termos e as regras segundo as quais tais representações se organizam.
A autonomia da representação face ao real (conceito que não é em si mesmo um dado, nem ele próprio é autónomo face às representações no interior das quais é percepcionado) funda a criatividade e a possibilidade de reinvenção permanente dos sistemas de representação em arte. As diferentes formas de modernidade em arte terão radicalizado tal relação de autonomia, assumindo a emancipação como um programa e cortando deliberadamente muitos dos laços que prendiam as práticas artísticas a diferentes modelos de realidade: empíricos, sociais, económicos, políticos, etc.
Esta autonomia refletiu-se no próprio estatuto e identidade do artista: se durante séculos (num uso que persiste na linguagem comum) a legitimação de um sujeito como artista derivava do reconhecimento por parte da comunidade da existência de capacidades de excepção na manipulação de uma dada linguagem (ou seja, seria em função do produto que se definiria a identidade do produtor), no último século fomos assistindo a uma lenta mas aparentemente inexorável inversão do processo: é o estatuto do produtor que define a identidade do produto: a arte tende a ser entendida como o resultado do trabalho do artista.
Inerente a este processo, e ainda que não assumida, ou mesmo quando pretensamente rejeitada, está a ideia de arte pela arte. Fundamento implícito da espantosa transformação das linguagens artísticas (das artes plásticas à literatura, à música, etc.) do último século e meio, ela será também responsável pelo progressivo fechamento das práticas artísticas sobre si mesmas. Responsável, sobretudo, por uma sacralização da arte que ameaça colocá-la não apenas fora da percepção crítica, mas do mundo e da vida.
Haverá vários rostos para este fechamento, distintos segundo a linguagem e o contexto: o mais notório talvez seja, pela sua sacralidade profana, o espaço do museu e da galeria (ou, concomitantes com ela, as posturas que se propõem questionar criticamente esse modelo, acabando por o reforçar simbolicamente), mas devemos acrescentar-lhes a ideia de literatura, e dentro desta a de poesia, naquilo a que paradoxalmente se poderia designar como uma metafísica sem exterior.
Se a ideia de transcendência é em princípio o fundamento necessário da metafísica (como quer que se represente tal transcendência), inerente à ideia de arte pela arte nas suas derivas contemporâneas parece estar a possibilidade de uma transcendência que se auto-impõe como sujeito de representação. Tal arte diz-se a si mesma ainda que pareça referir-se a outra coisa. Se o faz é sempre de um modo acessório: a arte fala da arte, a poesia fala de poesia, alimentando-se de si mesma num processo que tem tanto de autofágico quanto de estéril.
Mas, sobretudo, tal concepção de arte (que se deveria reverencialmente grafar com maiúsculas, ainda que iconoclasticamente ela própria o possa pretender questionar ou  satirizar) fala a partir do pretenso privilégio simbólico da sua própria identidade. Frequentemente não sobrevive fora das paredes protectoras deste privilégio.

Não está aqui em causa a complexificação das linguagens, sempre gradativa, mas nunca um fim em si mesma. A complexidade e o acréscimo de exigência para produtores e receptores não poderão legitimar o ensimesmar das práticas criativas, sob pena de deixarem o artista a falar sozinho. Não está tão-pouco em causa a radicalidade potencial da crítica sobre e dentro das linguagens, mas o entendimento de tal radicalidade: a crítica que age em circuito fechado nega os seus próprios pressupostos. E é em circuito fechado que age boa parte da produção artística contemporânea.
O que sobra são margens cada vez mais extensas e em muitos casos de uma riquíssima criatividade e de uma enorme capacidade de interagir com o espaço cultural, reconfigurando-o: a cultura de massas (da publicidade ao design, da arquitectura ao cinema e à música) será talvez o melhor exemplo. É aqui (despidas as pretensões de sacralização) que se constrói a paisagem cultural do último século, e é diante da sua constitutiva legibilidade (que nem sempre é sinónimo de menoridade estética ou conceptual) que se recentra a relação entre a arte e o mundo.




(Estas observações, desenvolvidas na sequência de uma troca de argumentos com Jorge Melícias, talvez traduzam apenas divergências conceptuais e estéticas, sendo elas mesmas denunciáveis enquanto parte do processo de sacralização simbólica da arte. De resto, como todas as construções representacionais, moldam e distorcem a realidade para que ela possa caber na representação.)