sexta-feira, 20 de junho de 2014

A irrelevância


 

«(…) Na verdade, tal como a mais bela melodia do mundo se torna vulgar, insuportável, a partir do momento em que o público a trauteia, a partir do momento em que os realejos se apossam dela, a obra de arte que não passa despercebida aos artistas impostores, que os cretinos não põem em questão, que não se contenta em suscitar o entusiasmo de uns poucos, torna-se, ela também, por isso mesmo, manchada, banal, quase repugnante para os iniciados.
De resto, essa promiscuidade na admiração era um dos grandes desgostos da sua vida; sucessos incompreensíveis arruinaram para sempre, aos seus olhos, quadros e livros tidos uma vez por valiosos. Em face da aprovação das massas, acabava por descobrir-lhes pequenos defeitos e rejeitá-las, pensando se o seu gosto não se estaria a tornar obtuso, enganoso.»  


No plano da cultura, não existe nada que possa ser tomado como um adquirido. No entanto, boa parte da identidade das práticas artísticas contemporâneas assenta no pressuposto de que a sua identidade e o seu estatuto simbólico são adquiridos civilizacionais. Nunca o são, e menos ainda em períodos de acelerada transformação.
É fácil menosprezar sobranceiramente alguns produtos artísticos (da literatura à música, do cinema às construções visuais), em função da sua suposta facilidade ou da larga adesão do público. Deste ponto de vista, o elitismo cultural não é muito distinto das pretensões de superioridade dos elitismos sociais e económicos.
Surge, por isso, tão crédulo quanto perigoso pretender que a maior ou menor adesão dos receptores às obras é apenas função da incapacidade dos públicos para “reconhecer” o valor destas. Tal discussão talvez tivesse sentido um século atrás como ideologia do modernismo (é o que Clement Greenberg faz como o texto Avant-garde and kitsch, de 1939). Hoje, a possibilidade de garantir o fulgor criativo inaugurado pelo próprio modernismo implica conservar alguma distância face a tais modelos. O que está em causa não é exactamente a autonomia ou a existência das artes, mas a sua relevância.

Sem pretender resolver o problema, vale a pena identificar alguns dados que, não sendo inquestionáveis, talvez possam ser tomados como ponto de partida. Aquilo que designamos como arte é, na sua pluralidade, uma experiência linguística. Todo o uso que é feito das linguagens está dependente do grau de domínio dessa mesma linguagem. No caso das artes, o seu uso depende do grau de domínio das linguagens por parte de produtores (sempre mais aprofundado em função da sua formação e especialização mais ou menos dedicada) e por parte dos receptores (normalmente com um domínio menos aprofundado. Quando o desfasamento entre o nível de linguagem dos produtores e o dos receptores é excessivo, o resultado não é apenas que os receptores têm dificuldade em "interpretar" as obras; elas deixam simplesmente de possuir relevância simbólica; tornam-se não acontecimentos. É possível que esta seja a situação de boa parte da produção artística contemporânea.
 
A alternativa não é entre o facilitismo e o elitismo; a exigência e a formação são pontos de partida de que não se deve abdicar, mas a arte é uma experiência relacional em que interagem os actores que existem: produtores e receptores; os que existem, não os que uma das partes gostaria que existissem.

 


1. Huysmans, Joris-Karl, Ao Arrepio, Trad. Daniel Jonas, Livros Cotovia, Lisboa, 2008, p. 109.