segunda-feira, 9 de junho de 2014

A quantidade



Um disco de música popular urbana comporta canonicamente uma dúzia de canções. São escassos os casos em que o alongar do número de faixas não redunda no empobrecimento do trabalho final. Por muito rica que seja a criatividade que suporta o trabalho de escrita e de composição, raramente a complexidade da articulação entre o texto e a música permite prolongar sem perdas o fulgor criativo.
Inversamente, e ainda que sem uma destas variáveis (a música), os livros de poesia tendem a expandir largamente o número de textos apresentados. Não são incomuns os livros que se aproximam da centena de páginas e de poemas. Existem, naturalmente, muitas formas distintas de compreender o que é ou deve ser a poesia, mas será lícito afirmar que parte daquilo que distingue a poesia de outros usos da língua é o cuidado acrescido no trabalho do texto: o suplemento de exigência crítica e criativa face ao ritmo, ao vocabulário, à articulação entre aquilo que é produzido como proposta de sentido e o modo como as palavras o corporizam.
Assim entendido, este é, ou deveria ser, um trabalho de rigor e de joalharia. Um trabalho que dificilmente é compatível com uma grande produção em número. Se cada poema tende a ser compreendido como um texto singular, cada livro surge como uma recolha de singularidades, ainda que temática ou formalmente articuladas. Mas a multiplicação de singularidades é questionável: aquilo que se produz, ao ampliar o seu número, é um efeito de multidão, com o inevitável apagamento das especificidades individuais.
É isto que se verifica na generalidade dos livros de poesia que se vão publicando: um excesso de palavras e de textos que conduz a um nivelamento e a um enfraquecimento da sua força semântica. Um nivelamento quase sempre consciente, no qual os autores cedem à tentação de tentar compensar com a quantidade aquilo que não é conseguido na intensidade individual de cada texto. Mas o número nunca compensa o indivíduo. A quantidade nunca substitui a qualidade.
Vinte textos por livro, ou dezanove, ou dezoito, ou vinte e um, ou vinte e sete. Um livro de dois em dois anos, de três em três, ao longo de vinte, trinta, quarenta anos, seria certamente mais do que suficiente. Mais do qualquer autor tem realmente para dizer, mais do que a atenção que cada leitor tem para lhe dispensar.