domingo, 29 de junho de 2014

Bernardo Pinto de Almeida, Imagem da fotografia

 
 
 
   «A poesia guarda, assim, o motivo do fragmento.
   Dele preserva a sua necessidade íntima, associando-se desde sempre à sua própria forma interna, à sua própria construção, na medida em que a poesia é também, de todas as experiências possíveis na (e pela) linguagem, a única que se quer em consonância quer com o real — enquanto sendo este experiência reciproca do corpo e do mundo —, quer com o tempo experimentado enquanto presente.
   Quer, ainda, com esse sopro original — a dicção [dichtung], mas ao mesmo tempo a inspiração, para o dizer sob o seu nome mais antigo — que garantiria a relação primordial do corpo com a magnitude da consciência de si, como experiência de uma relação com o mundo, concretizada depois no acto singular de cada um. Assumindo que essa consciência se actualiza sempre como reiteração infinita como reciclagem infinitamente actualizada — no próprio corpo da linguagem — da consciência do ser/corpo.» 1
 
    Dizer o mundo por palavras não é a mesma coisa que expô-lo através de imagens, ou traduzi-lo por uma equação matemática. Em nenhum dos casos se tratará de dizer o mesmo através de uma distinta linguagem, mas de reconfigurar enquanto experiência aquilo que se representa. Ou seja, de dizer e representar outra coisa.
   Cada época e cada cultura tendem a privilegiar uma dada forma de representação, uma dada forma de inscrição do mundo na experiência e na consciência. O exemplo maior será o modo como toda a tradição greco-judaico-cristã (ou seja, aquilo que em termos culturais se designa por Ocidente) fez da palavra o lugar nuclear de inscrição da verdade.
   Jacques Derrida caracteriza esta opção com o conceito de logocentrismo: o privilégio de uma noção de representação que faz da palavra um instrumento de domínio. Tal privilégio expressa-se, por exemplo, no modo como nos textos religiosos a palavra se afirma enquanto representação mais adequada à tradução da verdade divina. Ao contrário, as posições iconoclastas traduzem normalmente a recusa de conceder à imagem tal capacidade: proíbe-se a representação de Deus ou do Profeta através da imagem porque a sua natureza não caberia numa imagem.
   Seria possível efectuar uma leitura cruzada da história da arte ocidental a partir desta questão: em que momentos e em que condições é concedida a prevalência a uma dada linguagem: à pintura, à escultura, à poesia, à prosa, à música, à fotografia? De qualquer modo, talvez seja possível entender que um dos pontos de chegada do longo trajecto logocêntrico do Ocidente é o “Sistema das Artes” formulado por Hegel em pleno Romantismo: para o filósofo idealista, no plano da arte, a poesia é espaço por excelência de manifestação da verdade, do real e do absoluto:
   «Após a pintura e a música vem a arte da palavra, a poesia em geral, a verdadeira arte absoluta do espírito manifestando-se como espírito. Com efeito, só a palavra é capaz de se apropriar, de exprimir, transformando-o em objecto de representação, tudo quanto a consciência concebe e reveste de uma forma que ela encontra em si própria. Por isso, a poesia é, pelo seu conteúdo, de todas as artes a mais rica, a mais ilimitada.» 2
 
   Mas este ponto de chegada do logocentrismo é, curiosamente, o momento de inflexão cultural: será observável nos dois séculos seguintes uma notória transformação das relações de força (ou do posicionamento relativo) dessas linguagens. A partir de meados do século XIX, a invenção da fotografia inaugura uma época das imagens que, com um crescimento exponencial, se prolonga até à actualidade, impulsionada pela multiplicação de dispositivos técnicos de produção e de difusão de imagens. Seria mesmo possível pretender que hoje a palavra estaria ameaçada pelo império da imagem, e com a palavra ficariam ameaçadas a racionalidade, a crítica, a literatura.
 
   É neste contexto que surge como sugestiva e paradoxal a reedição do livro Imagem da fotografia, de Bernardo Pinto de Almeida. Sugestiva em função da importância deste ensaio; paradoxal em função do capítulo Imagem do Pensamento: Fragmento ruína memória, que constituiu o post-scriptum à edição italiana e acede agora à edição em português.
   O livro procura compreender a identidade da imagem fotográfica tanto na sua natureza como nas relações que estabelece com o espaço cultural contemporâneo. Atribuindo à imagem fotográfica uma pretensão totalitária e concedendo à palavra enquanto poesia uma natureza fragmentária, Bernardo Pinto de Almeida inverte os termos da relação; é já uma outra forma de pensar a escrita que aqui está implícita: a palavra não se apresenta como o logos de pretensões totalizadoras, não como o lugar de inscrição do absoluto, mas como território que a si mesmo se fragmenta e se questiona. Será à imagem fotográfica que serão concedidas a pretensão e os indícios da totalização. Mas tal totalização não será entendida nem como fim, nem como uma inevitabilidade. Pedir-se-lhe-á que seja ela própria instrumento do seu questionamento:
   «Que é que lhe pode resistir? A resposta, por paradoxal que pareça, é: a fotografia. Não poderemos esperar, senão da própria fotografia, essa tarefa que será (no futuro) a da desconstrução da cultura da imagem e, corolariamente, da imagem da cultura que nos formou e que nos forma ainda.»  3
 
   Mas seria excessivamente voluntarista pretender confiar apenas à imagem fotográfica a tarefa de proceder ao questionamento do seu próprio poder. Por isso, o discurso de Bernardo Pinto de Almeida vai produzindo as condições de identificação de um outro termo da relação capaz de desconstruir a ameaça da totalização: a escrita. Mas não se tratará de opor uma totalidade a outra, de opor um regime ético ou estético a outro: tratar-se-á, sobretudo, de assinalar a natureza simultaneamente convergente e divergente das diferentes formas de representação. Não se tratará de substituir um poder pelo outro, mas de questionar a própria ideia de poder.
   É na ideia de fragmento que o livro desemboca: o fragmento é nele a marca da impossibilidade de totalização da experiência, constituindo-se como resistência à sua ameaça. Apesar de cada imagem assinalar indelevelmente a sua natureza fragmentária, a possibilidade conceptual (se não empírica) da sua soma cumulativa abre o espaço da substituição da coisa pela representação fotográfica. Se o mundo como experiência se vê sob o risco de ser substituído pelas imagens fotográficas de si mesmo, a própria imagem abre condições à sua reinscrição e questionamento. É aqui que a escrita, nomeadamente a poesia, surge como pólo de resistência. A palavra já não é o lugar da totalização, mas aquilo que potencia a sua desconstrução, já não é o belo corpo orgânico do todo, mas a perturbante singularidade do fragmento:
   «O fragmento, reinstaurando o carácter enigmático de toda a linguagem, resiste ao poder totalitário da imagem, opondo assim a simbolização à diabolização, opondo o enigma à evidência, a interpretação ao arrebatamento, a cegueira à alucinação.» 4
 
   A natureza intimamente fragmentária da escrita corporiza-se no próprio texto de Imagem da Fotografia através de uma construção assistemática e modular (através de “imagens”, ou seja, através da multiplicação de perspectivas que podem não ser mutuamente compatíveis). O livro é constituído por micro ensaios que mutuamente se interpelam, questionam e reconfiguram, sem que o pensamento fique afectado pela impossibilidade de o confinar numa tese.
   E é nesta natureza fragmentária da representação poética que encontraremos, segundo Bernardo Pinto de Almeida, a identidade última da experiência humana: não a opção entre diferentes figurações ou promessas de poder e de totalidade, mas a descoberta íntima da sua inscrição na e como representação, ou seja, no e como fragmento.
   Há, precisamente pela força e congruência reflexiva do livro, uma questão que merece ser colocada: ao pretender conferir à palavra e à poesia o espaço e a tarefa de escrever as e nas ruínas da totalidade, não estaremos a assinalar-lhes um espaço que se revela próximo de um modelo metafísico de representação: aquele que assinala a palavra como lugar das coisas primeiras e derradeiras? A ontologia da ruína não deixa de ser uma ontologia. A metafísica do fragmento, não deixa de ser uma metafísica. E ambas, ontologia e metafísica, têm inevitavelmente a totalidade como referente último.
 
 
 
 
   1. Bernardo Pinto de Almeida, Imagem da Fotografia, prefácio de Antonio Tabucchi, Relógio D’Água, 2014, p. 114.
   2. G. W. F. Hegel, Estética, trad. Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino, Guimarães Editora, Lisboa, 1993.p. 349.
   3. Imagem da Fotografia, p. 72.
   4. Imagem da Fotografia, p. 113.