quarta-feira, 18 de junho de 2014

O mito do leitor


 


«Para os meus trezentos leitores», escrevia em 2009 Rui Pires Cabral na dedicatória do seu livro Oráculos de Cabeceira. Esta inscrição marca, num primeiro momento, a escassez de leitores de poesia, reforçando o espírito de grupo, se não de gueto ou de elite, que inevitavelmente atinge as actividades culturais de nicho. Mas a autoironia deixa igualmente exposta uma relação de posse do autor face aos seus destinatários. O “meus trezentos leitores” (ou três, ou três mil, ou trezentos mil) supõe a existência de um vínculo de propriedade que liga o autor aos seus potenciais destinatários. Outra possibilidade de leitura seria a inversão da relação de posse: não assinalaria a posse, mas a pertença, a marca de que o autor é propriedade dos seus leitores.
Mas em ambos os casos estamos perante a persistência de um equívoco: supõe-se como um dado a existência de um sujeito que sustente essa posse. Tal sujeito é um mito. Mito não no número (trezentos, três, três mil, ou trezentos mil), mas na natureza.
Existem, na cultura contemporânea, poucos dogmas tão resistentes quanto o da ideia de arte (literatura, poesia, música, artes plásticas, etc.). É um dogma recente na sua forma: herdeiro do romantismo e reconfigurado com os modernismos, ele concede-se a si mesmo a autossuficiência de um espaço sacralizado. Tal dogma, que é sobretudo um mito (não existirá força simbólica que sustente as suas pretensões), implica a subsistência de um outro mito: o da existência de um sujeito capaz de funcionar como depositário de uma relação privilegiada — o espectador: uma entidade lendária que enche museus e salas de espetáculos, consome bibliotecas e esvazia as prateleiras das livrarias, mas que em todos os casos age como o correspondente adequado do gesto do artista.
Elevado por Duchamp à condição de criador, revalorizado pela estética da recepção ou emancipado por Rancière, o espectador é pressuposto inquestionável da sacralidade profana da obra de arte. Tal como nenhum culto sobrevive sem crentes, as pretensões à mais-valia simbólica da obra de arte não sobreviveriam sem a mitificação do espectador. Esta mitificação cresce na proporção em que aumentam as pretensões à excepção simbólica das experiências propostas.
O leitor (ou o espectador, ou o ouvinte) é, sublinhe-se, um mito. Uma construção conveniente das indústrias culturais, mas sobretudo uma construção fantasmática do autor, incapaz de reconhecer que à sua obra não será dada mais do que a fugaz e superficial atenção que ele próprio na maior parte das vezes dispensa às obras dos outros. Uma atenção selectiva, condicionada, sob uma reserva que é menos função do distanciamento crítico do que de opções estritamente subjectivas.
Pede-se a este mito que suporte os outros: o mito da arte, o mito da poesia, o mito do sentido profundo e não-verbal das imagens, dos sons, ou das palavras. Pede-se-lhe que leia o que o autor quis dizer e que suplemente o que o autor não quis ou não soube dizer.
Mas é inútil esperar que o leitor leia na obra aquilo que o autor não disse. É inútil esperar que ele leia aquilo que o autor pretendeu dizer. Não seria mau que o leitor lesse (conseguisse, pudesse, se dispusesse a tal) aquilo que o autor escreveu. Ou não exatamente o que o autor escreveu, mas alguma coisa entre o que o autor propõe e o que a sua experiência da língua e do mundo lhe permite que apreenda e reconfigure.
Nem sequer isso está prometido à grande maioria das obras. Apenas o olhar apressado, que deforma conscientemente o que experiencia, com a atenção superficial de quem percorre as ruas de uma cidade. Por vezes com espanto ou deslumbramento, mas a maior parte com a indiferença e o cansaço de quem só vê verdadeiramente aquilo que já viu. De quem já não quer ver, precisamente, aquilo que já viu.