sábado, 16 de agosto de 2014

Luís Pedroso, Romance ou Falência

 
 
Romance ou Falência
 
 
Posta assim, como uma fraude à escala mundial,
a falácia que se esconde nas traseiras
de um título, escrevo como uma puta,
um meteorologista político
que antecipa qualquer vento que sopre
a ouvidos inocentes
as verdades mais inconvenientes

 
O meu trabalho
é descobrir o nome mais bonito
que se pode dar vandalismo,
convencer toda a gentes,
como quem esconde o derradeiro eclipse
de que escolher o romance
não é caminhar para a falência
 
 
 
Uma das inevitáveis aporias de pretender definir o que é a arte (seja a literatura ou qualquer outra experiência representacional que os últimos séculos ou as últimas décadas integraram neste âmbito) é que a suposta definição (ou seja, a delimitação do seu campo e princípios) implica a produção projectiva disso que se pretende determinar.
Ao nível das experiências artísticas, tal definição age de forma relevante a partir das práticas criativas: o modo como cada obra é produzida implica só por si uma tomada de posição acerca disso que é ou deve ser a literatura, a fotografia, o cinema ou a música.
Se toda a representação condiciona a apreensão e a compreensão do seu objecto, produzi-lo ao abrigo de uma dada noção de arte adiciona um suplemento de condicionamento. Não é possível escapar a esta natureza: parte disso a que chamamos arte é o resultado do acumular consciente de condicionamentos. Da tradição na qual ou contra a qual se inscreve aos princípios estilísticos assumidos, às opções políticas, éticas, etc., a arte é o resultado sempre provisório de atenções condicionadas, sejam as dos produtores ou as dos receptores.
Por isto, qualquer gesto artístico é no seu âmago uma declaração de intenções acerca da própria natureza do gesto, ou seja, da arte. Romance ou Falência 1, o título do mais recente livro de Luís Pedroso, é só por si uma declaração de intenções e a expressão consciente de uma concepção de literatura. Aquela que constrói uma imagem de contemporaneidade no cruzamento nunca resolvido (porque irresolúvel) da subjectividade romântica e da permissividade moderna. Luís Pedroso fá-lo de um modo consciente, assumindo a percepção do mundo a partir de um olhar simultaneamente centrado e descentrado: o olhar que se perspectiva a si mesmo com a estranheza de quem olha o outro, ou de quem olha o outro com a sem surpresa de quem se reconhece a si mesmo.
Num livro sólido, perpassa a sensação de que o autor nem sempre explorou o material temático e linguístico com a radicalidade necessária. Se é possível ir mais fundo, é preciso ir mais fundo. O excesso de confiança na linguagem e na poesia pode constituir um obstáculo para a própria escrita. A disjunção enunciada no título terá, como todos saberemos, algo de incontornavelmente rectórico: a opção correcta seria provavelmente romance e falência, mas afirmar o contrário é em si mesmo uma manifestação de fé numa certa ideia de vida e de literatura.
 
 
O mar trouxe tanta pedra
 
 
A vida não está munida
de qualquer género de sonoplastia —
e seu efeito mais dramático é o do silêncio

O ranger de sucupiras que se escuta
está, de facto, a ser produzido nesse lugar e instante
e não há em fundo qualquer arranjo de cordas
a acentuar dores ou despejos

No inverno que passou,
o mar levou toda a carne
e devolveu à costa cinzenta
roladas, perfeitas pedras,
sobre as quais não há quem se deite

“Fim
do mundo” —
expressão que há muito
perdeu o perfume ameaçador

O fim do mundo é um planalto
de onde se pesca à linha

 
Vida e literatura partilham, talvez, como território comum a mesma e elementar presença do silêncio: circunstância, natureza, salvaguarda, ameaça. Pretender, como o faz este livro (como faz toda a literatura que merece esse nome), que é possível encontrar nas palavras um suplemento de espessura para a experiência do mundo, se não para o próprio mundo, implica o assumir pela poesia de uma responsabilidade que o nosso tempo não lhe incumbe.
E será isto, o trabalhar no interior do emudecimento (voluntário ou imposto), que constrói a pertinência da poesia na contemporaneidade: ninguém lhe pede nada, e ninguém lhe dará nada em troca. O território do silêncio é inevitavelmente o território da solidão — seja esta heróica ou trivial. Mas situar-se em tal território significa expor-se ao risco da estrita irrelevância: à possibilidade de que ninguém veja, de que ninguém leia, de que ninguém ouça. A permissividade criativa herdada da modernidade pode desembocar quer no espaço fechado da subjectividade romântica, quer no gueto daqueles que insistem em modelar o mundo a partir de uma linguagem ameaçada de extinção.
 









1. Luís Pedroso, Romance ou Falência, Artefacto, 2014, (50 páginas).