quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Jácome Armas, Conjunto Homem





« Carta 1 Da Natureza para o Homem

Caro Homem, disse a Natureza, sabias que o teu maior erro foi teres inventado o espelho?

(E o Homem sentiu-se estúpido: não sabia.)

Mas não, disse a natureza.
(E o homem sentiu-se ainda mais estúpido: tinha sido enganado.)

Então a Natureza disse: O teu maior erro foi teres coberto o Mundo com espelhos. Agora, sem te aperceberes, sempre que olhas pela janela e tentas pintar o que vês, acabas por pintar-te a ti próprio. No fim, ainda levantas o quadro e dizes: O Mundo.
(O Homem ouviu, calou-se e saiu convencido de que ia provar à Natureza que era capaz de ver o mundo e todas as suas cores.)

(Até hoje o Homem falhou.)» 1


     Olhar para o mundo nunca consiste numa relação neutra de apreensão. Para ver não basta abrir os olhos, para compreender não basta traduzir essa percepção para uma representação consciente. O ver está já condicionado pela representação e esta nunca é alheia à experiência do objecto. Os condicionamentos implicam-se e multiplicam-se, numa relação que não é estritamente cumulativa ou linear. 
     Pretender possível que a experiência humana tenha um acesso luminoso ao mundo na sua essência seria negar a própria ideia de cultura.Enquanto cultura, a experiência dá tanto a ver quanto deturpa para que o visível caiba dentro da percepção, das linguagens e das representações.

     Esta relação entre a representação e o real surge como o problema central do livro Conjunto Homem de Jácome Armas (nascido em 1985, especializado em física teórica). É um livro híbrido e inquieto: nem ensaio nem poesia, mas um espaço problemático onde os temas são tratados com a liberdade de pensamento e de experimentação que ambos proporcionam.
     No plano temático, a sua principal virtude é não reduzir o problema ao binómio representação/objecto, mas mostrar que ele implica um terceiro termo: o sujeito, o ser humano, entendido como sentimento e espaço de experiência representacional. 
     Neste sentido, perguntar pelo mundo é perguntar pelo homem e pelas suas linguagens, do mesmo modo que perguntar pelo homem significará inevitavelmente perguntar pelo mundo no qual se inscreve e com o qual interage. Interrogar a razão será desembocar no sentimento, interrogar o sentimento será desembocar nos limites da representação e da própria ideia de verdade. Perguntar pelo objecto é interrogar o sujeito, interrogar o sujeito é deparar-se com o objecto:

«Proposição 15 As janelas da tua casa são transparentes.

(De fora, o Mundo pode olhar para dentro e ver o estado da tua casa. Não tão bem quanto tu: a casa é grande e o alcnce do Mundo também tem limites. Àquilo que tu chamarias Sentimento o Mundo chamaria humor.)

Þ As entradas dos sentidos são duplas: se vês o Mundo o Mundo também te vê a ti e, claro, vês-te a ti próprio.» 2

     O livro, de tom aforístico, é um trabalho de interrogação sobre a própria linguagem. Embora se estruture segundo o esquema aparentemente lógico de um encadeamento argumentativo (Definição, Proposição, Conjectura, Exemplo, etc.), ele subverte de facto a linearidade do discurso dedutivo, afirmando uma arbitrariedade lógica só acessível ao discurso da poesia:

«Lema 14 O humor nunca desaparece.

(Mesmo que feches todas as janelas o mundo vê sempre uma paisagem: as janelas fechadas.)» 3

     Dedicado, entre outros, a Gonçalo M. Tavares e Wittgenstein (e assumindo com isso as dívidas e as influências), o livro adopta a dimensão de uma pesquisa que a si mesmo recusa as condições de verificabilidade. Tratar-se-á mais de construir os problemas do que de enunciar respostas, ou de não enunciar outras respostas que não aquelas que possam elas mesmas ser sujeitas à dúvida e à revogação.
     Diferente será a questão de saber qual o critério de verdade (ou de qualidade, assumindo a preponderância do discurso literário no livro) a partir do qual a validade da teses é susceptível de ser avaliada. O género ensaio tem sempre como critério implícito de verdade a argumentabilidade das teses, a garantia de que elas sejam contra-argumentáveis. A literatura pode prescindir da argumentabilidade, acolhendo a possibilidade da aporia ou da contradição interna. Talvez resida aqui um dos principais méritos deste livro de Jácome Armas: ele escapa-se e questiona os critérios e a autoridade de ambos os registos.



1. Jácome Armas, Conjunto Homem, (ilustrações de Pedro Solá), Companhia das Ilhas, (50 p.), p. 11.
2. p. 42.
3. p. 42.