quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O (pequeno) mundo da arte





«O mundo da arte é o discurso de razões institucionalizado, e ser membro do mundo da arte é, correspondentemente, ter aprendido o que significa participar no discurso de razões de uma cultura. Em certo sentido, o discurso de razões de uma dada cultura é uma espécie de jogo de linguagem, governado por regras de jogo e por razões similares àquelas que sustentam a ideia de que só onde há jogos há vitórias, derrotas e jogadores, assim, apenas existe arte onde existe um mundo da arte.» 1.



Em Portugal, são raras ou quase inexistentes as polémicas no espaço da literatura.

Serão várias as razões: em parte, porque a rarefacção de autores e de leitores exigentes quase não suporta o peso da polémica; em parte, porque para alguns dos potenciais intervenientes há mais a perder do que a ganhar; mas sobretudo porque, provavelmente, aquilo que os liga é somente um mútuo sentimento de desprezo.

Será por isso que quase não há, sequer, confronto de ideias. Qualquer objecção ou tomada de posição contrária tende a ser entendida como um questionamento pessoal. Se é a partir do umbigo que se escreve, é a partir do umbigo que se lê, ou não se lê, mas em qualquer dos casos é partir dele que se avalia e se retalia, se valer a pena. A autosufiência da crítica é a negação da própria ideia de crítica e de discussão de ideias.
A indiferença, ou o silêncio, com que quase tudo o que se diz ou publica é acolhido é directa expressão desta autosuficiência. E é também em nome desta que ocasionalmente se enaltecem trabalhos menores e se desvia os olhos quando acontece alguma coisa de verdadeiramente relevante.

A escassez de espaços institucionais de discussão (nos media, mas também na universidade) não é compensada pela existência de espaços informais: a lista telefónica de cada um parece ser suficiente. Mas se o mundo da arte é, nas palavras de Danto, o discurso de razões institucionalizado, estaremos muito próximos da anemia crítica. Aquilo que nos ameaça é possibilidade da completa irrelevância do gesto.  De qualquer gesto.





  1. Arthur C. Danto, Beyond the Brillo Box,:The Visual Arts in Post-Historical Perspective, University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 1998. p. 46.