segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Os ciprestes




«Os gigantescos ciprestes ludovisios, os da Aurora, os mesmos que um dia tinham espargido a solemnidade do seu antigo mysterio sobre a cabeça olimpica de Goethe, jaziam por terra (tenho-os constantemente na memoria tal qual como os meus olhos os viram n’uma tarde de novembro) alinhados n’um enorme labirinto, uns junto dos outros, com as raízes negras descobertas, que ainda pareciam estar ligadas á terra, ao phantasma de uma vida ultrapotente.» 1

     A paisagem é o espaço perspectivado e manipulado. Habitado ou não, modelado ou não, tal espaço é sempre configurado segundo um conjunto de representações dominantes. Os valores ou a concepção de mundo de quem a vê e habita enquadram-na do mesmo modo que uma janela abre numa parede um espaço de percepção, definindo o visível e o não visível.
     Nenhuma vivência do espaço é neutra. Ela é condição e consequência das representações partilhadas por cada época, cultura, e indivíduos. Olhar para aquilo que nos rodeia não é suficiente para o apreender como realidade organizada. Aprendê-lo implica sempre um trabalho de organização cultural do espaço, e toda a experiência deste implica formas de o manipular física ou simbolicamente. Dar um nome a um rio, a uma montanha ou a uma árvore é desde logo integrá-los num sistema de representações. Atribuir-lhes um sentido ou uma função é fazer deles parte de um processo de construção do mundo como coisa humana.
     
     «tenho-os constantemente na memoria tal qual como os meus olhos os viram n’uma tarde de novembro.»: é impressiva a forma como D’Annunzio faz o lamento do abate dos ciprestes nos jardins da Villa Lodovisi, destruídos no final do século XIX para darem lugar à urbanização da vasta zona hoje envolvente da Via Veneto.  Não são apenas árvores que são abatidas, com elas morre uma noção de mundo e de cultura. Com elas, um ideal romantizado do espaço e de vida dá lugar a uma ameaçadora modernidade que lhe surge privada de valores. Símbolos vivos, a morte das árvores é prenúncio ou manifestação da perda do mundo por elas corporizado.
    
    Mas dizer que a vivência do espaço nunca é neutra não implica que os sistemas de princípios e valores que subjazem a qualquer perspectivação possam ser entendidos como inteiramente correlativos e indiferenciados. Não o são. Tal como as linguagens são objecto de usos diferenciados e gradativos, do mesmo modo o são o espaço e a paisagem, os elementos naturais e as construções humanas. Neste sentido, a capacidade de ser exigente face à organização do espaço (seja ao nível do quotidiano, das artes ou da literatura) é, ela própria, uma aquisição representacional.




1. Gabriel D’Annunzio, As Virgens (Le Vergini delle Rocce), s/t, Libraria Editora Guimarães & C.ª, Lisboa, 1905, p. 59.