domingo, 19 de outubro de 2014

Prémios




      Num país onde os prémios se entregam a autores e não a obras (sempre, apenas, o pretexto próximo para premiar os autores que em cada momento se entende premiáveis), um concurso como o Prémio Leya parece garantir alguma isenção crítica. Acreditando que se trata, de facto, de uma ”prova cega”, tal poderia permitir um olhar sobre as obras não condicionado pelo nome do autor. Mas os resultados são, no mínimo, questionáveis.
      Desde logo, é difícil compreender o que pode conduzir a que quase quatrocentos autores enviem os seus trabalhos para este concurso: o prémio monetário, a garantia de atenção da imprensa? A promessa de leitores? O reverem-se na ideia de literatura implicada? Como explicação, isto não chega. Uma justificação simples para muitos dos envios talvez resida na possibilidade vislumbrada de derrubar a barreira da edição com a qual, fruto do estrangulamento editorial, numerosos escritores se confrontam. Deste ponto de vista, confiar num júri poderá ter vantagens face aos estreitos critérios de grupos editorais cada mais concentrados. Tal parece revelar-se um equívoco. Um equívoco em parte explicável pelo próprio funcionamento do processo de triagem. 
      Dado que é humanamente impossível ler, em quatro meses, sequer as primeiras dezenas de páginas de todos os romances a concurso, o trabalho do júri supõe um processo prévio de selecção, da responsabilidade do grupo editor. A grande maioria das obras cai aqui, sem chegar, de facto, a ser lida pelo júri. Isso justificará aquilo que é já um traço definidor em termos de critério e que não se distingue da linha editorial dominante desenvolvida, ao nível do romance de língua portuguesa, pelas diferentes chancelas do grupo Leya.
      Perspectivando os já cinco anos de prémios publicados, os critérios privilegiam o literariamente correcto — o que normalmente significa uma prosa escorreita, mas por vezes próxima da apatia (e no fundo destituída de excessivas marcas autorais), uma construção narrativa com alguma inventividade, mas sem excesso de risco ou de experimentalismo. Talvez por isto, com poucas excepções, os livros premiados e as obras que posteriormente são editadas com a indicação de terem sido finalistas do prémio têm vindo a revelar-se literariamente inócuos. Competentes, mas pouco mais do que isso. Olhando para trás, no acumulado de centenas e centenas de romances que foram sendo enviados a concurso, custa conceber que o resultado seja apenas aquele.