sábado, 4 de outubro de 2014

Repetição de princípios


 

 

I - A crítica é um exercício de violência: confronta as obras com aquilo que elas não são, impondo-lhes um critério que lhes é exterior.
 
II - A crítica é comprometida: responde por uma imagem de mundo e de literatura. Nesta estrita medida, a crítica é sempre programática — compara aquilo que as obras são com aquilo que elas poderiam ser.

III - A crítica é o lugar de uma experiência tanto afectiva quanto racional. O distanciamento e a proximidade são, na mesma proporção, a sua condição.

IV - A crítica é um produto do risco. A possibilidade de erro é directamente proporcional ao risco assumido.

V - A crítica é um trabalho contra o mundo, contra a literatura. Se a arte é um movimento de produção do mundo através da modelação de representações, a crítica é um trabalho de subtracção do mundo a si mesmo.

VI - A crítica é um exercício sobre a língua. Na literatura, como em todas as artes, o mundo tem o tamanho da linguagem na qual se produz. O sentido de uma representação é função da linguagem em que se realiza. As suas potenciais riqueza experiencial, densidade semântica e valor estão-lhe indexados.
 
VII - A crítica não é um instrumento de mediação, é parte do processo de constituição da coisa em representação.

VIII - Enquanto instituição, a crítica é sempre supletiva. Enquanto olhar interior à produção e à recepção, é constituinte.

IX - Apesar do p, não confundir pinheiros (pinus pinaster) com aliterações.