sexta-feira, 7 de novembro de 2014

João Urbano, Revoada




    «Enquanto eu ingeria mais um gole de cerveja, Alberto, numa das suas típicas variações, declarou que um dispositivo ficcional se devia portar como o horizonte de acontecimentos de um buraco negro, deixando apenas escapar alguns fios de luz1

     Todas as obras de arte falam acerca de si mesmas. Se falam ou implicam outras obras, fazem-no em função da sua própria identidade como obra. Se falam acerca do mundo em que emergem, fazem-no no espaço perspectivado da sua congruência interna. É por isto que assume particular relevância a defesa, quase no fim do curto romance Revoada, de uma natureza clástica e nunca totalizável da ficção. Talvez esta seja uma correcta auto-caracterização do projecto narrativo de João Urbano: aquilo que se constrói como espaço ficcional está intimamente preso de uma desconexão consciente que a cada momento parece ameaçar (se não ridicularizar e reduzir à banalidade) a congruência do todo. Esta é uma característica já presente no seu primeiro romance (Romance Sujo), assim como nos textos que regularmente surgem na revista Nada, de que é director. Como resultado, temos talvez o mais próximo que se pode encontrar de um projecto de ficção alternativa.
     No seu melhor, este livro é uma reflexão irónica e solta sobre a ideia de arte e de literatura. No pior (mas que é constituinte: este dispositivo ficcional só funciona através da exposição das suas próprias falhas), é uma espécie de registo de época ou reconstrução romanceada de memórias de juventude.

     No início do livro, o protagonista enuncia, na primeira pessoa e num registo oralizante, o falhanço da sua empresa de consultoria paraédrica. Tal não o surpreende, e não o lamenta. O desenvolvimento do livro assentará numa construção narrativa que percorre diferentes estádios do desengano, de um modo particular ao nível dos projectos criativos. 
     O trabalho reflexivo (cénico e voluntariamente atópico) sobre a arte e a literatura percorre quer o protagonista, quer alguns personagens centrais. Alberto, sobretudo, um escritor falhado por entreposta pessoa. Falhou como escritor porque no seu todo a literatura portuguesa falhou: de Eça a Camilo, de Saramago ou a Lobo Antunes. Diante disto resta tirar partido do falhanço:

     «Para mim, sermos tão maus, sermos os piores, era uma espécie de beatitude e uma vantagem.» 2,

       ou afirmar um desejo de destruição:

     «Eu vim ao mundo para destruir a literatura. E faço-o não porque seja incapaz de pôr de pé uma obra literária, não, longe disso, só que essa máquina literária já não consegue ter qualquer relevância nos tempos que correm, não consegue sequer beliscar os tempos que correm, quanto mais ataca-los, fendê-los.» 3

     Curiosamente, e talvez este constitua o aspecto mais interessante de todo o livro, a consciência ou a pretensão, ou o receio, ou o desejo, de tomada de consciência de uma incapacidade intrínseca da literatura para subverter o mundo não conduz à ironia cínica ou verdadeiramente à desistência. Ao contrário, promove a perturbação. O medo das alturas não dá lugar à experiência daquilo que é rasteiro. Suscita a vertigem:

     «Eu, para minha desgraça, tenho medo das alturas. Encontro-me quase sempre num estado-vertigem e não fosse estar tão perto, tão agarrado ao chão, não aguentava.» 4




1. João Urbano, Revoada, Edições Nada, Lisboa, 2014, (119 p.), p. 117.
2. p. 54.
3. p. 55.
4. p. 23.