segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Um luxo das elites




    Assiste-se, na poesia, à revalorização do livro como objecto. Tiragens pequenas, trabalho gráfico cuidado e artesanal de editoras dedicadas fazem do livro um pequeno exercício de luxo. Valoriza-se o suporte, valoriza-se o conteúdo, potencia-se o vínculo afectivo e estético com a própria poesia. Será inquestionável o mérito das editoras e de quem as anima.
    Mas, no reverso, as pequenas tiragens implicam sempre escassa distribuição, centralizada e dirigida a uma pequena comunidade de interessados. E, se a reduzida tiragem é uma resposta à escassez da procura e uma consciente opção de controlo de riscos, garantindo a sustentabilidade dos projectos, ela inibe igualmente a possibilidade de que as editoras ganhem a robustez financeira capaz de suportar programas mais ambiciosos. A estratégia parece ser mais a da resistência do que a da conquista, mais a da reacção do que a do arrojo. Se, por um lado, garante o acesso da poesia à edição, num mundo editorial cada vez mais rarefeito e mercantilizado, por outro, ameaça excluí-la do espaço público. A literatura exigente não é uma experiência de massas, mas assumi-la como arte de nicho talvez seja condená-la à irrelevância simbólica no espaço cultural.
    Acresce que, num momento de expansão das tecnologias de informação, o próprio investimento em estratégias gráficas de cariz artesanal não deixa de marcar uma relação nostálgica com a edição e a literatura: a nostalgia de quem se sente sob ameaça, e que talvez seja sintoma do cerco que sobre elas se fecha. A segurança do gueto sustenta projectos e garante o reconhecimento dos iguais, mas pode ser um prenúncio do desaparecimento.