terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A escrita é sem porquê?




      Não há nada que o seja. Nem a escrita, nem as artes, nem a ciência, nem o afecto. Porque é que se escreve? A resposta é acidental, a pergunta, constituinte. Em literatura, como nas outras artes, o quê e o porquê são fundadores. Se há herança da modernidade que não é desprezável é a consciência de que cada obra é uma interrogação acerca da sua identidade individual e colectiva enquanto linguagem: a cada imagem, poema ou romance subjaz uma interrogação acerca da natureza da pintura, da poesia ou da ficção. Este é um trabalho interior às linguagens, mas é também exterior enquanto os resultados são necessariamente experiências públicas. Nenhuma interioridade se justifica a si mesma.
      António Guerreiro problematiza no Público a legitimidade de que o autor se coloque a si próprio tal pergunta, imputando a Miguel Sousa Tavares a ingenuidade de a ter formulado publicamente. Não vale a pena questionar a sobranceria intelectual implicada na acusação, como não vale a pena equacionar as respostas de Miguel Sousa Tavares. Mas importa questionar a própria interrogação. Não é aceitável, como António Guerreiro o faz, avaliar a pertinência da pergunta em função da qualidade da resposta. Enquanto pergunta, ela talvez seja a primeira. As outras são decorrências. Ela sinaliza a capacidade de questionar o próprio pensamento que pensa, de representar enquanto dúvida o sistema de representação. Não é ingénua, não é supletiva.
      Quanto às respostas, elas muitas vezes dizem menos acerca de quem as formula do que do contexto representacional em que se inscrevem. António Guerreiro faz apelo à distinção, enunciada por Roland Barthes, entre écrivains (escritores) e écrivants (escreventes). Mas esta distinção é nítida e inaceitavelmente metafísica. O trabalho criativo não conhece dignidade de natureza. Os efeitos são avaliáveis, não o é o processo, tal como nunca o é a intenção. O investimento criativo inerente a um trabalho absolutamente falhado não tem de ser distinto do de um trabalho bem sucessivo. Serão distintas as representações operantes, mas estas não podem só por si explicar a qualidade ou a mediocridade do produto.
      O modo como em cada momento os diferentes criadores representam o processo criativo tende a ser função das representações dominantes do seu tempo, do seu contexto cultural e do grau de autoconsciência crítica. Qualquer que seja a resposta, ela não compromete necessariamente os resultados. Na maior parte das artes, a repetição dos lugares-comuns relativamente ao processo de produção (a arte como espaço expressão, de comunicação, etc.) é resultado de uma vulgata que não tem de se reflectir nas obras. Basta ler um texto como “O Processo Criativo” de M. Duchamp para o confirmar: esse texto não só não é particularmente penetrante do ponto de vista conceptual, como, a vários níveis, apouca os próprios trabalhos do autor, sendo incompatível com algumas das suas mais acutilantes intuições.
      A pergunta é fundadora, as respostas circunstanciais. Avaliar a primeira em função do resultado das segundas é tentar inverter o encadeamento causal, tal como o seria procurar avaliar a qualidade de uma obra a partir da intenção do autor.