sábado, 20 de dezembro de 2014

Desviar os olhos para ver melhor? — Uma resposta a Pacheco Pereira




      Pacheco Pereira tem vindo a interrogar-se no Público se vale a pena ler livros contemporâneos. Mais do que uma questão de escolhas e de prioridades, está em dúvida a qualidade da arte na contemporaneidade, especificamente a da literatura. Tal visão merece ser discutida e questionada. Viveremos nós, ao nível das artes, uma época de empobrecimento e de declínio? Não é provável, mas a única resposta honesta é que não sabemos. É tão equívoca a condenação sumária do contemporâneo como a sua defesa acrítica.
      Qualquer tentativa de resposta não pode passar pelos estritos termos em que é colocada por Pacheco Pereira, tal como não poderia consistir numa lista dos autores capazes de demonstrar o valor e a pertinência do que hoje se produz. A existir uma resposta, ela está a montante: independentemente do que se valoriza ou desvaloriza na actual produção literária, é necessário que interroguemos o modo como nos relacionamos com o próprio presente. Ao pretender medir o valor do presente através de uma comparação directa com o passado, corre-se o risco de enviesar e distorcer tanto o presente quanto o passado.
      É necessário recuar dois passos para recolocar o problema: aquilo que está em causa não é só uma avaliação qualitativa da produção contemporânea, mas uma noção de experiência cultural que exige ser repensada. Temos hoje, como nunca, a possibilidade de viver simbólica e afectivamente em séculos anteriores: ver pintura renascentista, ouvir música barroca, ler poesia romântica. Esta é uma aquisição recente. Ao longo da história, e para além daquilo que eram as persistências orgânicas de cada cultura, a tendência era a de que a produção e a recepção estivessem próximas no tempo e no contexto cultural. Consumia-se em termos culturais aquilo que se produzia no imediato, do mesmo modo que a maior parte dos alimentos era cultivada nas proximidades.
     A possibilidade do registo e da recuperação de heranças históricas (notória a vários níveis, como por exemplo na música) permitiu transportar para o presente a recepção de obras produzidas no passado, induzindo o cruzamento entre distintos critérios de percepção e de avaliação. Porém, a valorização das produções do passado não pode justificar a recusa do presente em nome da sua suposta menoridade. As heranças chegam-nos filtradas por séculos de distância, por uma infinidade de instâncias de mediação, pela acção do esquecimento involuntário ou do apagamento deliberado.
      Querer aplicar ao presente os mesmos critérios que hoje se revelam eficazes para receber as produções do passado é não só incorrer num erro de perspectiva, como, sobretudo, esquecer que aquilo que nos chega é fruto da rarefacção da memória.
      A pretensão moderna de tudo preservar ou de tudo musealizar não pode fazer omitir que é, de facto, inexequível conservar tudo, pelo que a preservação é um trabalho de apagamento daquilo que se situa nas suas cada vez mais extensas margens. Aquilo que se preserva, musealiza ou canoniza corresponde em cada momento a uma resposta situada que só por si não garante o mérito da opção. Se algumas construções representacionais respondem melhor do que outras à acção da distância e da transformação, nem sempre, em cada contexto, é antecipável quais serão elas, dado que o olhar do outro nunca é verdadeiramente antecipável. Não é possível lidar com as produções contemporâneas com o distanciamento induzido pela distância histórica. O distanciamento crítico pode simulá-lo, mas nunca o realiza plenamente.
      Não basta, por isso, reconhecer que o suposto declínio cultural do Ocidente já foi repetida e reiteradamente constatado ou previsto, é necessário extrair consequências: as anteriores previsões assentavam na projecção no futuro de tendências de curto prazo que rapidamente se revelaram distorcidas. Nas primeiras décadas do século XIX, Hegel afirma a morte simbólica da arte: “Em todos os aspectos referentes ao seu supremo destino, a arte é para nós coisa do passado.”, diz-nos, na sua Estética. Ora, a segunda metade desse século e todo o século XX são um deslumbrante desmentido à “constatação” de Hegel: em diferentes linguagens, as artes revelaram uma pujança criativa com poucos precedentes na história do Ocidente. Reconhecer um erro não legitima a sua repetição.
      Claro que existe sempre em qualquer contexto cultural a possibilidade do declínio e da decadência. As civilizações perdem fulgor intelectual e criativo, os mundos morrem, mas mais frequentemente transformam-se, diversificam-se e geram outras estratégias de interacção representacional. Por outro lado, ao nível das estritas formas de construir a experiência enquanto representação, deparamo-nos frequentemente com um desfasamento entre o modo como estas são percepcionadas no imediato e a sua capacidade de se projectarem no longo prazo. Pretender medir o presente a partir da projecção do passado ou dos seus critérios é distorcer a acuidade de percepção e de avaliação do presente, sem que se garantam ganhos de compreensão prospectiva.

      A não ser que se esteja diante de momentos de destruição catastrófica (e mesmo esses de alcance imponderável, basta ter em conta o modo como a Alemanha se reergue do apocalipse da Segunda Guerra), identificar no imediato um suposto declínio tende a ser mais a projecção particular de um olhar do que uma característica do objecto de análise. Quanto ao olhar céptico de Pacheco Pereira, serão questionáveis os factos que o sustentam.
      Primeiro, o suposto declínio parece exclusivo das práticas criativas de carácter artístico, não atingindo o âmbito de outras formas de construção representacional do mundo, como a ciência. Tal poderia acontecer, mas é improvável: nas culturas complexas, as diferentes linguagens ou instrumentos representacionais tendem a agir de um modo integrado, através de uma multiplicidade de formas de interacção. 
      Segundo, a pluralidade de linguagens e propostas criativas na contemporaneidade parece incompatível com qualquer declínio. Em diferentes culturas, a decadência é acompanhada pela rarefacção criativa e pela repetição empobrecida dos modelos do passado. Ora, é o oposto que se verifica na actualidade. O pluralismo será talvez o regime estético por excelência da contemporaneidade. A diversidade, não a repetição.
        No âmbito das criações artísticas, grande parte daquilo que hoje se escreve, publica, compõe ou produz será naturalmente mau. Mas é mau como o foi em qualquer outro momento ou contexto. Olhar, por exemplo, para a literatura ou para a música do século XIX (ou XVIII, ou XVII, ou XVI) e identificar um punhado de grandes nomes não pode fazer esquecer que esses representam apenas aquilo que emerge de um extenso território de mediania e de mediocridade que a distância condenou ao apagamento simbólico. Nada justifica que a qualidade capaz de surgir da quantidade seja inferior no presente contexto histórico e cultural ao que aconteceu em qualquer outro momento do passado. Acresce que, no estrito plano quantitativo, a actual produção artística não tem precedentes ao nível da história da humanidade.
    Isto não colide com a possibilidade de esvaziamento criativo e simbólico de uma dada forma de representação. Podemos pensar que, em cada momento da história e em cada contexto cultural, os mais dotados membros de cada comunidade investem a sua energia criativa e o seu fulgor intelectual em diferentes áreas e linguagens, sendo por isso natural que, numa mesma cultura, haja picos de esplendor em diferentes áreas ou formas de representação. Um bom exemplo talvez seja o da teologia no mundo medieval: os melhores pensadores investiam nela a sua energia intelectual, pelo que é consequente que os resultados sejam de excepção. No século XX, apenas muito poucos dos melhores se dedicaram à teologia, pelo que é expectável que os resultados reflitam esse menor investimento individual e colectivo. O exemplo será extrapolável para numerosas áreas da experiência cultural. Em cada momento privilegiam-se distintas linguagens e distintas formas de representação. O menor investimento em alguma ou algumas delas não pode ser entendido como sintoma geral de declínio.
      Ora, nada sugere que ao nível das artes assistamos a um tal desinvestimento. Não é verificável, no mínimo, em termos quantitativos — e esta é uma variável incontornável da contemporaneidade: nunca se produziu tanto. Poderá existir uma menor apetência por algumas linguagens, e algumas formas de construção representacional poderão revelar dificuldade em se articularem com as transformações culturais (como aconteceu com a pintura, por exemplo), sofrendo, por isso, uma desvalorização simbólica, mas não é legítimo concluir por um qualquer declínio criativo. No caso particular da literatura, escasseiam os indícios que permitam sustentar a existência de uma perda de força simbólica.
     Da poesia à ficção, é expressiva a diversidade das recentes propostas. Não existe desinvestimento. Geração após geração, o que é notável é o modo como a vitalidade criativa se renova e se reconfigura. Uns desistem, outros falham, alguns prosseguem com rigor e exigência. Talvez Pacheco Pereira veja crescer o deserto onde existe apenas uma alteração da flora.
      Entender a história como um processo não determinado pela sua origem ou pelo seu fim implica assumir, de facto, a sua natureza processual. O privilégio do passado inerente à mitificação das suas construções representacionais talvez não seja aqui senão uma versão ilustrada do privilégio pré-moderno das determinações de origem. Porém, tal como nada assegura a superioridade do contemporâneo, ou que o futuro seja mais rico e brilhante, nada garante que o passado fosse mais puro, penetrante ou profundo. E desviar os olhos do presente não garante uma maior acuidade de percepção.