terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A má literatura das contracapas




É frequentemente penosa a equívoca promessa de felicidade inscrita na maioria das contracapas dos livros. Quase sempre, por muito mau que seja o livro, o texto de apresentação tende a ser pior. Quando os livros são bons, raramente o que a contracapa apresenta não significa um adulterar do seu registo e do seu conteúdo. Nos livros de ficção, e para além dos excertos descontextualizados de críticas das mais anódinas publicações e dos comentários elogiosos de autores consagrados, acresce normalmente o resumo canhestro da narrativa. O nível de linguagem é invariavelmente sofrível, repisando os lugares comuns da divulgação jornalística, e adulterando aquilo que é o trabalho sério sobre a língua e a experiência, ou seja, adulterando a própria ideia de literatura.
Veja-se a título de exemplo, o último parágrafo do extenso comentário na contracapa do romance Stoner, de John Williams, publicado pela Dom Quixote:
«Na era da hipercomunicação, Stoner devolve-nos o sentido da intimidade, deixa-nos a sós com aquele homem tristonho, de vida apagada. Fechamos a porta e partilhamos com ele o empolgamento literário; sabendo, tal como ele, que nos restará sempre o consolo da literatura.»
Sem ser excepcional, o romance em causa é um livro sólido e sóbrio que não merece (nem nele se espelha) este kitsch de sacralização do literário. Como publicidade, é muito mau. Como crítica, não chega a sê-lo. É difícil identificar o que lhe resta que não seja um prévio e intolerável condicionamento da própria leitura.