«Meus pais
trabalhavam no campo. Quando havia, o que havia era sempre fome. Fui um dia à
escola, à noite chegou uma mulher que morava ao pé da minha mãe e disse-lhe
assim,” oh Maria, atão o teu filho, ele não quer ir guardar porcos?”, “Pois vai…
Pois”. A minha mãe não tinha lá pão pra comer e atão fui guardar porcos. Mais
tarde comecei a andar de roda dos ganhões. (…)» 1
(João Francisco Beringela,
1922-1988, Campo Maior)
«Andei à escola em
gaiato, pequenino, entrei aos cinco anos e saí aos sete. (…) Estava na terceira
classe e já sabia ler.
Sempre trabalhei no
campo: primeiro fui ganhão, a lavrar com o arado; depois fui “moiral de
parelhas” dez anos; fui dezasseis anos abegão; no fim, fui doze anos guarda-florestal,
e agora há cinco anos que sou cabreiro. (…)» 2
(António Rego, 1909-1994,
Alter Pedroso)
São impressivas as notas biográficas dos trinta poetas
populares integrados no volume A Cultura
popular, Os Encontros e Desencontros de Poetas, que recupera registos dos
Encontros de Poetas Populares, organizados no início da década de oitenta pelo
Centro Cultural Popular Bento de Jesus Caraça, em Vila Viçosa.
Estes poetas, gente do campo e das pequenas vilas do
Alentejo, inscrevem-se numa tradição oral que faz da palavra um espaço de
construção de identidades. Analfabetos, alguns deles, apenas sumariamente
escolarizados, a maior parte, as suas composições (décimas, em quatros estrofes, sobretudo) espelham
uma talvez insuspeitada pujança da poesia como espaço simbólico. Existem modelos,
existe aprendizagem, existe transmissão de saberes e de critérios.
Mas esta é uma
transmissão talvez condenada pela história. Assistimos, provavelmente, a um mundo que
morre à medida que estes poetas vão desaparecendo. A fixação das palavras no
texto impresso significa ao mesmo tempo a garantia da sua perdurabilidade como registo,
e o prenúncio do seu desaparecimento como prática viva.
Os trabalhos destes autores não são mais verdadeiros ou
mais naturais do que quaisquer outros modelos de poesia. Eles implicam as suas normas
específicas, as suas tradições, os seus arquétipos. Eles reproduzem, como em
toda a poesia, os lugares comuns e as frases feitas próprias de cada contexto,
mas tornam evidente a penetração simbólica da poesia na cultura rural. E tornam
sobretudo claro que a pobreza não é condição, apenas um estado.
No resto, se a poesia
é mais cultivada ou menos cultivada, tal é somente função dos instrumentos
linguísticos à disposição de cada um.
1. João Madureira e de João Godinho (ed.), A Cultura Popular, Os Encontros e
Desencontros de Poetas, Centro de Documentação do Pão, Terena, 2014, p. 61.
2. Idem, p. 79.