quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

As palavras e a pobreza



      «Meus pais trabalhavam no campo. Quando havia, o que havia era sempre fome. Fui um dia à escola, à noite chegou uma mulher que morava ao pé da minha mãe e disse-lhe assim,” oh Maria, atão o teu filho, ele não quer ir guardar porcos?”, “Pois vai… Pois”. A minha mãe não tinha lá pão pra comer e atão fui guardar porcos. Mais tarde comecei a andar de roda dos ganhões. (…)» 1 
(João Francisco Beringela, 1922-1988, Campo Maior)


      «Andei à escola em gaiato, pequenino, entrei aos cinco anos e saí aos sete. (…) Estava na terceira classe e já sabia ler.
      Sempre trabalhei no campo: primeiro fui ganhão, a lavrar com o arado; depois fui “moiral de parelhas” dez anos; fui dezasseis anos abegão; no fim, fui doze anos guarda-florestal, e agora há cinco anos que sou cabreiro. (…)»
(António Rego, 1909-1994, Alter Pedroso)


      São impressivas as notas biográficas dos trinta poetas populares integrados no volume A Cultura popular, Os Encontros e Desencontros de Poetas, que recupera registos dos Encontros de Poetas Populares, organizados no início da década de oitenta pelo Centro Cultural Popular Bento de Jesus Caraça, em Vila Viçosa.
      Estes poetas, gente do campo e das pequenas vilas do Alentejo, inscrevem-se numa tradição oral que faz da palavra um espaço de construção de identidades. Analfabetos, alguns deles, apenas sumariamente escolarizados, a maior parte, as suas composições (décimas, em quatros estrofes, sobretudo) espelham uma talvez insuspeitada pujança da poesia como espaço simbólico. Existem modelos, existe aprendizagem, existe transmissão de saberes e de critérios. 
      Mas esta é uma transmissão talvez condenada pela história. Assistimos, provavelmente, a um mundo que morre à medida que estes poetas vão desaparecendo. A fixação das palavras no texto impresso significa ao mesmo tempo a garantia da sua perdurabilidade como registo, e o prenúncio do seu desaparecimento como prática viva.
      Os trabalhos destes autores não são mais verdadeiros ou mais naturais do que quaisquer outros modelos de poesia. Eles implicam as suas normas específicas, as suas tradições, os seus arquétipos. Eles reproduzem, como em toda a poesia, os lugares comuns e as frases feitas próprias de cada contexto, mas tornam evidente a penetração simbólica da poesia na cultura rural. E tornam sobretudo claro que a pobreza não é condição, apenas um estado.
      No resto, se a poesia é mais cultivada ou menos cultivada, tal é somente função dos instrumentos linguísticos à disposição de cada um.




1. João Madureira e de João Godinho (ed.), A Cultura Popular, Os Encontros e Desencontros de Poetas, Centro de Documentação do Pão, Terena, 2014, p. 61.
2. Idem, p. 79.