segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Os calendários da barbárie




«(…)
E até os discursos, os gritos, as canções
eram como promessa de outro tempo melhor,
ofereciam-nos
um bilhete de volta ao século dezasseis.
Que criança não o aceita?
(…)» 1



      A modernidade e, agora, a globalização assentam sobre uma noção uniliteral de tempo e de história que traz consigo a pretensão de impor ou de dar como adquirida uma sincronização universal: a possibilidade de que todos, num mesmo instante, vivam no mesmo momento histórico, sendo por isso a sua acção avaliável adentro desta pertença a um tempo comum. Mas o tempo e a história não são síncronos nem universais.
      As diferentes culturas e, no interior de cada uma delas, os diferentes grupos e indivíduos nunca viveram num tempo único. Tão-pouco o vivem hoje, apesar da homogeneização globalizadora da contemporaneidade. Em cada cultura, em cada grupo cultural, a história é vivida a distintas velocidades, há diferentes noções de tempo e de transformação, diferentes modos de os transformar em narrativa, diferentes formas de os organizar em mundo.
      O facto de, em cada contexto, as concepções dominantes conseguirem impor um tempo/calendário de referência não se traduz imediatamente pela integração de todos os particulares. Estes persistem, mesmo sem a consciência de que vivem e percepcionam o mundo a partir perspectivas cronológicas virtualmente incompatíveis.
      O tempo de uma comunidade rural não é o tempo de uma comunidade urbana. Podem ter pontos de conexão, mas não coincidem. O tempo e a história apreendidos a partir de uma cultura de raiz europeia não são os mesmos que os apreendidos a partir de cultura não europeia. Podem ter pontos de articulação, acontecimentos e suportes técnicos em comum, mas não coincidem. Podem, inclusive, coincidir no espaço sem que a essa partilha do espaço tenha de corresponder uma coexistência cronológica.

      Assumir esta dessincronia torna muito mais complexa a tentativa de pensar as relações interculturais. É este um dos grandes problemas das comunidades pluriculturais contemporâneas: num mesmo espaço podem coexistir não apenas de distintas culturas com distintos valores e identidades, mas, mais do que isso, comunidades que interagem no interior de distintos momentos históricos.
      Isto pode ser traduzido pela ideia de conflito de representações. Na actualidade, aquilo que opõe o Ocidente tendencialmente secularizado a uma concepção fundamentalista do Islão não é qualquer insuperável conflito civilizacional (provavelmente são demasiadas as afinidades históricas e culturais para que exista tal conflito), mas um conflito de distintas representações do tempo e da história. Os seus calendários (ainda?) não estão verdadeiramente sincronizados. A modernidade secular é uma construção europeia, e é preciso assumi-lo. Sem pretensões de definitiva superioridade, mas sem embargos relativistas.
      Esta dessincroniza não é nova. É uma constante de toda a história da humanidade: multiplicação de culturas e de representações de mundo separadas no tempo, mas também distanciadas no espaço. Aquilo que a contemporaneidade traz de novo é que à diferença cronológica adicionou a proximidade espacial. O outro cronológico e representacional já não tem de coincidir com o outro espacial: ele pode coabitar espacialmente, sem que necessariamente coexista no tempo
      As anteriores experiências desta dessincronia tendiam a ser corporizadas no interior de relações de poder muito assimétricas (por exemplo, de cariz colonialista), o que permitia a um dos elementos impor operativamente uma dada concepção de tempo e de história. Na actualidade, quando as relações de poder se esbatem o suficiente para que alguns grupos questionem a noção de história dominante, esse questionamento já não se faz apenas a partir do exterior, mas frequentemente a partir do interior espacial e social. 
      O conflito não é entre culturas, mas entre tempos, entre modos de o viver e de o representar. Tal não desculpabiliza ninguém, mas deve transformar as interacções culturais num permanente processo de negociação. Um processo de negociação no qual, sublinhe-se, nenhuma das partes tem o direito de indicar à outra o que é que ela pode ter como inegociável.





1. Jaime Gil de Biedma, “Tento Formular a Minha Experiência da Guerra”, in Antologia Poética, edição bilingue, tradução de José Bento, Edições Cotovia, 91-95.