quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Um mar morto?



«Existe uma tradição hassídica segundo a qual o rabi Menachem-Mendel de Kotzk, “o mestre apesar de si mesmo” (…) escrevia todas as noites uma única página, uma página que ele pretendia definitiva, mas que, quando cada manhã a recomeçava a ler, inundava com as suas próprias lágrimas, tornando-a ilegível e desanimadora aos seus próprios olhos, fazendo da página, com os seus signos inundados, alguma coisa como um mar morto.» 1


Qual seria a linguagem mais rica? Aquela que conseguisse transpor o mundo para uma única palavra, para uma única imagem, para um único som, ou aquela que possuísse uma representação para a cada uma das mais singulares experiências? Uma palavra única que reunisse o sentido do universo e de cada um dos seus particulares, ou uma palavra para cada particular? Uma palavra para a chuva intermitente que cai (aqui) às onze horas do dia 15 de Janeiro de 2015, outra para aquela (nunca a mesma) que cai às onze e trinta, e outra e outra para qualquer outra data, hora e lugar, acrescidas da multiplicação individual dos sujeitos, acrescidas da multiplicação das diferentes línguas, acrescidas de um sem número de factores de diferenciação.
A proliferação de palavras seria o equivalente da multiplicação dos mundos, mas marcaria os limites da própria possibilidade de os apreender. Ao contrário, a redução do mundo a uma única palavra talvez permitisse a compreensão que garante a posse, mas fá-lo-ia ao preço da sua inaceitável limitação.
Nem uma coisa, nem outra. As linguagens são, todas, constitutivamente limitadas. Imperfeitas, deficientes, exíguas, mas abertas. Assentam sobre o desfasamento entre elas e o mundo, entre elas e elas mesmas. Nenhuma representação é a primeira e nenhuma será a última. Todas as páginas estão simultaneamente em branco e insuportavelmente preenchidas. Todo o trabalho é sempre um começar pelo princípio e o retomar de um processo no lugar onde alguém (quem?, outro, o próprio, o próprio que é sempre outro?) o deixou.
O contínuo processo de reescrita de Menachem-Mendel de Kotzk (que no fim da vida destruiu todos os seus manuscritos) talvez marque a impossibilidade de transpor o mundo para a linguagem. A consciência da incapacidade da linguagem humana para dizer alguma coisa que a ultrapasse. Mas marca também a necessidade de recomeçar permanentemente. De escrever o mundo contra a língua e contra si mesmo.
É possível pensar que as lágrimas não vinham apagar o texto, mas revelar que, de facto, a página não tinha nada escrito. Ou que era nada aquilo que estava escrito e que as lágrimas se acrescentavam às lágrimas como o branco se acrescenta ao branco, ou como o vazio se acrescenta ao vazio.





1. Georges Didi-Huberman, Phasme, Essais Sur l’Apparition, Éditions de Minuit, Paris, 1998, p. 149.