«Foi então que o
desconhecido me disse:
— Olhe bem para
ela. Depois, nunca mais a verá.
Havia uma ameaça na
afirmação, mas não na sua voz. Ajeitei-me no lugar e encerrei o volume.
Reabri-o de imediato. Em vão procurei a figura da âncora, folha após folha.
(…)
— Isto não pode
ser.
Sempre em voz
baixa, o vendedor de bíblias disse-me:
— Não pode ser, mas
é. O número de páginas deste livro é exactamente infinito. Nenhuma é a
primeira; nenhuma, a última. Não sei porque estão numeradas desse modo
arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita
admitem qualquer número. (…)» 1
O Livro de Areia,
de Jorge Luís Borges, é a mais persuasiva metáfora de uma noção de
interpretação que faz de cada obra, de cada olhar e de cada interpretação uma
experiência irrecuperavelmente singular. Cada página é sempre outra página,
cada imagem é sempre outra imagem, cada som ecoa de forma distinta na experiência
subjectiva de cada indivíduo.
As obras de arte, literatura, pintura, música, ou outras,
são espaço de multiplicação de interpretações, lugar de afirmação de um
relativismo histórico, cultural e subjectivo que nenhuma universalidade pode
subsumir. Face aos ideais de universalidade e de totalização desenvolvidos pela
modernidade, o pensamento das últimas décadas do século XX descobriu a
importância da diferença enquanto lógica de construção das identidades. As variáveis
de diferenciação diferem segundo as perspectiva adoptada: políticos, estéticos,
étnicos, sexuais, etc., mas em comum apenas a afirmação da diferença como fundamento
de uma inquestionável singularidade.
Esta diferença é inquestionável, mas talvez seja
pertinente pensar que ela é apenas uma das dimensões da experiência da arte, e
não necessariamente a mais relevante: aquilo que funda a arte como experiência
individual e comunitária é a possibilidade de que todos possam ver, ler, ouvir
o mesmo: a mesma imagem, a mesma narrativa, a mesma música. É esta capacidade
de partilha que funda as experiências de recepção partilhada: concertos,
teatros, cinemas, mas também discos, livros. É esta faculdade que faz com que
algumas construções adquiram um forte valor simbólico, no imediato ou no longo prazo.
O todos aqui em
causa é sempre de geografia muito variável, e nunca é, de facto, totalizável,
mas isso é condição e não afecta o argumento: o todos da comunidade pode ser definido pelas duas pessoas de uma
relação de enamoramento, pelas duzentas de uma sala de teatro, ou pelos muitos milhões
de espectadores de um filme de grande público. Que todos possam ver (ou comprar, etc.) permite fundar a ideia de comunidade:
num dado momento, as relações de construção da identidade implicam a partilha
daquela representação, implicam que os seus membros experienciem e ou tenham
experienciado o mesmo.
Que nunca ninguém veja o mesmo (nem o mesmo indivíduo em
momentos diferentes) não deve desvalorizar a importância da possibilidade de
partilha de uma experiência. Estaria próximo do absurdo a ideia de um concerto
onde cada individuo (centenas, milhares) ouvisse uma música diferente, de um
livro que assumisse para cada leitor uma distinta configuração. Tal
inviabilizaria a própria possibilidade de valorização simbólica das obras: aquilo
que se pede a uma canção é que seja a mesma, audição após audição. Aquilo que se
pede a um poema é que seja o mesmo, ano após ano. É a mesma constância que se pede
a uma paisagem, a uma cidade, a uma pessoa. E é isso que é condição da própria singularidade
da perspectiva.
Qualquer que seja o grau de subjectivismo de cada
experiência singular, é isto que distingue a experiência obra de arte de um
simples sentimento ou de uma qualquer forma de alteração dos estados da
consciência, por efeito do álcool ou de outra substância alucinogénia: estes
não são repetíveis nem partilháveis. A arte é, por natureza, partilhável. O irredutivelmente
divergente não o é.
1. Jorge Luís Borges, «O livro de Areia», in Obras Completas, vol. III, trad. António
Sabler, Editorial Teorema, p.72.