sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Jaime Gil de Biedma, “Tento Formular a Minha Experiência da Guerra”




Na literatura, como em todas as artes, importa menos o que é dito do que o modo como é dito. Este reiterar da valorização do “modo” não traduz nenhuma postura estética de raiz formalista, mas a convicção de que a identidade de uma obra de arte se joga no interior de um processo complexo de potenciação das possibilidades representacionais de uma dada linguagem. Este “modo” consiste, precisamente, num nome possível para a capacidade que uma dada escrita tem ou não tem para corporizar um dado conteúdo (semântico, afectivo, etc.) numa dada linguagem. A força ou relevância do primeiro é directamente função da força da segunda. É admissível pensar que num dado contexto histórico e artístico, nada de muito relevante distingue ao nível do conteúdo (e esta dicotomização é claramente forçada) a generalidade dos agentes criativos: do ponto de vista temático nada de muito substancial distinguirá a poesia lírica de Camões da dos seus contemporâneos — uma e outras são o resultado da interacção entre a percepção subjectiva de uma experiência cultural de mundo que é partilhada, respondem por uma noção de poesia que é comum. A diferença é de grau e diz respeito à capacidade de, numa paisagem partilhada, produzir usos da língua que potenciem a profundidade da experiência proposta, que potenciem a riqueza daquilo que é dito. Não se trata de uma questão estritamente formal, mas implica a dimensão forma como constituinte.

A importância do “modo” talvez seja mais perceptível na maneira como a experiência das catástrofes que construíram o século XX raramente teve uma tradução literária que potenciasse enquanto experiência artística a percepção do horror e da inaudita desumanidade. Há registos, na primeira ou na terceira pessoa, mas raramente há a verdadeira capacidade de transformar o registo em alguma coisa que ultrapasse a dimensão documental, mesmo quando se pretende inscrever no plano do literário. Não questionando a pertinência cultural e humana dos temas, aquilo que falta é a capacidade de os potenciar enquanto experiência literária.

Um excepcional exemplo de uma transposição literária da experiência da guerra é-nos dado pelo texto de Jaime Gil de Biedma “Tento Formular a Minha Experiência da Guerra” (na versão de José Bento). Cabem neste texto o quase milhão de mortos da guerra civil espanhola (figura particular de um século que se construiu sobre uma massa de dezenas de milhões de mortos em conflitos armados) e a inocência possível de quem não acredita na inocência. Aquilo que nos é proposto é uma experiência da guerra civil filtrada pela subjectividade de um olhar infantil, mas reconstruída enquanto literatura por uma linguagem muito forte:

«Tento Formular a Minha Experiência da Guerra
 

Foram, possivelmente,
os anos mais felizes da minha vida,

e não é estranho, dado que ao fim de contas
ainda não tinha dez.

As vítimas mais tristes da guerra
são as crianças, diz-se.
Mas também é certo que é um bicho a criança:
perdoam-lhe a brutalidade
dos adultos, ela sabe aproveitá-la,
e vive mais que ninguém
nesse mundo demasiado simples,
tão parecido ao seu.


Para começar, a guerra
foi conhecer os páramos com vento,
as sementeiras de gleba pegajosa
e as tardes de azul, celestes e um pouco pálidas,
com os montes de neve rosada na distância.
O meu amor pelos invernos da meseta
é uma consequência
de ter havido em Espanha quase um milhão de mortos.


A salvo nos pinhais,
— pinhais da Mesa, da Roseira, do Ginete! —,
o medo e a desordem dos primeiros dias
eram algo confuso, com essa irrealidade
dos momentos demasiado intensos.
E Segóvia parecia longínqua
como umna grande cidade, era quase a frente
— ou pelo menos um lugar heróico
um sítio onde tenentes trazendo um braço ao peito,
que nos emocionava visitar: a guerra
ficava ali ao alcance das crianças
tal como a querem.
Na volta, ao passarmos pela ponte Uñés,
procurávamos a areia remexida
onde estavam, sabíamos, os cinco fuzilados.
Depois a chuva desenterrou-os, levou-os rio abaixo.


E recordo-me também de um passeio a Coca,
que era a povoação mais próxima,
numa dessas manhãs em que a luz
é ainda, no ar, relâmpago de geada,
mas que anunciam já a primavera.
Minha lembrança, bem vaga, é somente uma imagem,
uma nítida imagem de felicidade
retratada num céu

para onde se apressa a torre da igreja,
entre um nimbo de pássaros.
E até os discursos, os gritos, as canções
eram como promessa de outro tempo melhor,
ofereciam-nos
um bilhete de volta ao século dezasseis.
Que criança não o aceita?

Quando por fim voltámos
a Barcelona, ficou-me por uns meses
a nostalgia daquilo, mas habituei-me.
Quem me conhece agora
dirá que a minha experiência
nada tem a ver com a as minhas ideias,
e é verdade. Minhas ideias da guerra mudaram
depois, muito depois
de ter começado o após-guerra. » 1

Assuma-se como paradoxal a inscrição deste texto no interior da argumentação atrás enunciada. Ele parece contrariar aquilo que foi argumentado, prescindido voluntariamente das marcas do literário, para se apresentar como o registo quase neutro de uma experiência: é difícil imaginar formulação  poética formalmente mais funcional do que a deste texto. Ora, é esta secura de formulação, onde se corporiza o imediato da experiência infantil e a mediação da palavra por parte do adulto (muito depois / de ter começado o após-guerra) que torna possível a força da experiência proposta como literatura. Ela é-nos dada pelo rigor de uma formulação verbal que no mesmo movimento anula cada palavra diante do seu significado e faz deste simples correlato material dessa mesma palavra. O mundo é condição da palavra na estrita medida em que a palavra é ela mesma condição do mundo. Este texto de Jaime Gil de Biedma é disso uma espantosa afirmação: não há complacência, nem com o mundo, nem com as palavras.




1. Jaime Gil de Biedma, “Tento Formular a Minha Experiência da Guerra”, in Antologia Poética, edição bilingue, tradução de José Bento, Edições Cotovia, 91-95.