Um mais um são apenas dois na ausência dos dois. É uma relação de poder: o poder de poder, o poder de saber, o poder de possuir. Se o estar a dois é uma relação de poder, é uma relação que a si mesma se subtrai como condição de afirmação do individual. O outro define-se nos limites do eu, o eu encobre-se e ficciona-se nos limites do outro.
É possível pensar o livro Nada de Dois 1, de Pedro Mexia, como a encenação possível da impossibilidade da identidade a dois. A ambiguidade de género literário (correlativa à ambiguidade dos géneros sexuais) é o ponto de partida para a construção de um trabalho de assinalável ambição. Tomemos este livro como uma não peça de teatro. Embora o possa ser, não se assume como tal, e é, claramente, mais do que isso: é uma ficção, uma narrativa em forma de diálogo, onde as indicações de cena funcionam como a contextualização espácio-temporal mínima que suporta a acção, ou seja, a interacção a dois — o diálogo.
Os diálogos funcionam aqui como uma interrogação acerca da possibilidade de falar da própria relação: como dizer aquilo que se materializa na margem das palavras? Como confessar aquilo que não chega sequer a ser assumido? Como falar de intimidade através do sexo, como falar de sexo sem intimidade? Não é um dilema, é a constatação dos limites das palavras e do sexo, do corpo e da representação:
«Joana
Um “amante”? Eu nunca tive um amante. Tu é que ficas mais tranquilo com essa palavra, “amante”, como se isto fosse um romance do século XIX e tu tivesses o direito à nobreza do logro, uma espécie de piedade dos fracos. Um amante é coisa que nunca tive, é uma palavra cómoda para ti, mas eu tive apenas um homem com quem ia para a cama, geralmente nem falávamos, é muito redundante falar, sabes?, falar é uma actividade muito popular entre as pessoas fracas.» 2
É possível pensar o livro Nada de Dois 1, de Pedro Mexia, como a encenação possível da impossibilidade da identidade a dois. A ambiguidade de género literário (correlativa à ambiguidade dos géneros sexuais) é o ponto de partida para a construção de um trabalho de assinalável ambição. Tomemos este livro como uma não peça de teatro. Embora o possa ser, não se assume como tal, e é, claramente, mais do que isso: é uma ficção, uma narrativa em forma de diálogo, onde as indicações de cena funcionam como a contextualização espácio-temporal mínima que suporta a acção, ou seja, a interacção a dois — o diálogo.
Os diálogos funcionam aqui como uma interrogação acerca da possibilidade de falar da própria relação: como dizer aquilo que se materializa na margem das palavras? Como confessar aquilo que não chega sequer a ser assumido? Como falar de intimidade através do sexo, como falar de sexo sem intimidade? Não é um dilema, é a constatação dos limites das palavras e do sexo, do corpo e da representação:
«Joana
Um “amante”? Eu nunca tive um amante. Tu é que ficas mais tranquilo com essa palavra, “amante”, como se isto fosse um romance do século XIX e tu tivesses o direito à nobreza do logro, uma espécie de piedade dos fracos. Um amante é coisa que nunca tive, é uma palavra cómoda para ti, mas eu tive apenas um homem com quem ia para a cama, geralmente nem falávamos, é muito redundante falar, sabes?, falar é uma actividade muito popular entre as pessoas fracas.» 2
Estamos perante um trabalho em seis partes, cuja estrutura inverte e subverte a linearidade diacrónica para nos apresentar seis momentos de construção e desconstrução de uma relação entre um homem e uma mulher. Ao longo dos seis episódios vamos assistindo à redefinição dos parâmetros dessa relação, ao mesmo tempo que ao questionar da própria identidade de género de cada um. A assumida, embora frequentemente forçada, dicotomização de género permite pôr em questão a identidade da mulher para o homem e para si mesma, a identidade do homem para si e para ela. Esta tentativa de definir uma identidade confronta-se com os medos e as representações sociais de cada um dos papéis: a prostituta, e o macho violento — em cada um dos casos, um mito e um obstáculo que se revela não superável, constituindo o negativo de uma identidade que define na margem do estatuto de género dominante:
«Vasco
Machista? Eu nem macho sou. Houve uma troca na maternidade. Em vez de me trocarem com outra criança, trocaram-me um cromossoma. Um caso chocante de negligência médica.» 3
O estatuto de cada um dos géneros é posto em causa na mesma medida em que, enquanto indivíduos, cada um dos personagens se constrói a partir da sua identidade sexual. É esta impossível coincidência entre o meu eu e o meu sexo, entre o meu sexo e a minha vontade, entre a minha vontade e o meu poder, que se encenam neste trabalho — a autonomia constrói-se no interior de uma constituinte relação de dependência.
«Vasco
Machista? Eu nem macho sou. Houve uma troca na maternidade. Em vez de me trocarem com outra criança, trocaram-me um cromossoma. Um caso chocante de negligência médica.» 3
O estatuto de cada um dos géneros é posto em causa na mesma medida em que, enquanto indivíduos, cada um dos personagens se constrói a partir da sua identidade sexual. É esta impossível coincidência entre o meu eu e o meu sexo, entre o meu sexo e a minha vontade, entre a minha vontade e o meu poder, que se encenam neste trabalho — a autonomia constrói-se no interior de uma constituinte relação de dependência.
É um trabalho atento e rigoroso, embora num ou outro momento pareça perder espessura. Tal poderá ser o resultado de uma opção deliberada. Diante da consciência crítica que o autor inegavelmente possui, coloca-se a questão de saber como pensar algumas aporias do texto: por vezes, surge sensação de estarmos diante de um acumular de banalidades que se apresentam sob a capa de uma intelectualização forçada do quotidiano:
«Vasco
Aí está uma boa teoria. O azar é que sou racional onde devia ser irracional e (como é que é a expressão?) vice-versa, como um tipo que pensa na cama e que na vida social se guia pelos instintos.» 4
A banalização do saber, ou o seu uso como instrumento de poder, parece, aqui ou além, impedir uma abordagem mais aprofundada da identidade psicológica dos dois elementos. A encenação do poder e da perda pode constituir assumidamente encenação, mas não teria talvez de ser forçada. A opção por este registo (sobretudo na voz masculina) poderá ter comprometido uma abordagem mais crua e dura, porque menos protegida pelo manto culturalista. Assumamos que é uma opção de escrita. Uma opção que permite colocar em questão o uso da razão como instrumento de poder. Mas ao mesmo tempo que se expõe a razão enfraquece-se a formulação de uma identidade afectiva, a dois ou a um mais um.
Se os personagens nem sempre são coerentes consigo mesmos, as contradições de formulação e de conteúdo ao longo dos diferentes momentos traduzem um processo de construção e transformação psicológica: aprende-se a viver consigo mesmo, (não) aprendendo a viver com o outro — todo o ganho parece ter como penhor uma perda correlativa. É, de facto, uma relação de poder: o poder de não poder, o poder de pedir, o poder de perder.
«Vasco
Aí está uma boa teoria. O azar é que sou racional onde devia ser irracional e (como é que é a expressão?) vice-versa, como um tipo que pensa na cama e que na vida social se guia pelos instintos.» 4
A banalização do saber, ou o seu uso como instrumento de poder, parece, aqui ou além, impedir uma abordagem mais aprofundada da identidade psicológica dos dois elementos. A encenação do poder e da perda pode constituir assumidamente encenação, mas não teria talvez de ser forçada. A opção por este registo (sobretudo na voz masculina) poderá ter comprometido uma abordagem mais crua e dura, porque menos protegida pelo manto culturalista. Assumamos que é uma opção de escrita. Uma opção que permite colocar em questão o uso da razão como instrumento de poder. Mas ao mesmo tempo que se expõe a razão enfraquece-se a formulação de uma identidade afectiva, a dois ou a um mais um.
Se os personagens nem sempre são coerentes consigo mesmos, as contradições de formulação e de conteúdo ao longo dos diferentes momentos traduzem um processo de construção e transformação psicológica: aprende-se a viver consigo mesmo, (não) aprendendo a viver com o outro — todo o ganho parece ter como penhor uma perda correlativa. É, de facto, uma relação de poder: o poder de não poder, o poder de pedir, o poder de perder.
1. Pedro Mexia, Nada de Dois: Tragicomédia, Edições Tinta da China, 2009, (140 p.)
2. Idem, 54-55.
2. Idem, 54-55.
3. Idem, 98.
4. Idem, 73.
