terça-feira, 18 de setembro de 2012

Petição de princípio






I - A crítica é um exercício de violência: confronta as obras com aquilo que elas não são, impondo-lhes um critério que lhes é exterior.

II - A crítica é comprometida: responde por uma imagem de mundo e de literatura. Nesta estrita medida, a crítica é sempre programática — confronta aquilo que as obras são com aquilo que elas poderiam ser.

III - A crítica é o lugar de uma experiência tanto afectiva quanto racional. O distanciamento e a proximidade são, na mesma proporção, a sua condição.

I - A crítica é um produto do risco. A possibilidade de erro é directamente proporcional ao risco assumido.

V - A crítica é um trabalho contra o mundo, contra a literatura. Se esta é um movimento de produção do mundo através da modelação de representações, a crítica é um trabalho de subtracção do mundo a si mesmo.

VI - A crítica é um exercício sobre a linguagem. Na literatura, como em todas as artes, o mundo tem tamanho da linguagem na qual se produz. O sentido de uma representação é função da linguagem com que se realiza. As suas potenciais riqueza experiencial, densidade semântica, e valor, estão-lhe indexados.

VII - A crítica não é um instrumento de mediação: é parte do processo de constituição da coisa em representação.

VIII - Enquanto instituição, a crítica é sempre supletiva. Enquanto olhar interior à produção e à recepção, é constituinte.

IX - Enunciar evidências não é necessariamente dizer a verdade.